Metodologia

Pilares do poder

Samsão destruindo o templo dos Filisteus puxando os pilares que lhe servem de suporte.

Em resumo

Use a análise pilares do poder para identificar as instituições que fariam seu alvo entrar em colapso sem seu apoio e desenvolver estratégias para enfraquecer ou eliminar esses “pilares” institucionais.

Primeiro eles te ignoram, depois riem de você, depois brigam, e então você vence.

— Gandhi

Origens

Gandhi, Gene Sharp, Robert Helvey

Muitos acreditam que “o poder cresce a partir do cano de uma arma”, como disse Mao Zedong. Porém, pesquisas e experiência mostram que o poder deriva não da habilidade que um oponente poderoso possui de usar a força, mas também do consentimento e da cooperação das instituições e organizações que sustentam o opressor: a mídia, o exército, a polícia, os tribunais, as universidades, o trabalho organizado, patrocinadores internacionais, entre outros.

Use a análise pilares do poder para identificar as instituições cuja ausência de apoio faria seu alvo entrar em colapso e para desenvolver estratégias não-violentas para enfraquecer ou eliminar esses “pilares” institucionais, de modo que as fundações que sustentam o alvo comecem a esmigalhar e o sistema caia. Quando você entende as variadas instituições que possibilitam um determinado regime opressor ou o status quo para manter seu poder, você pode investigar maneiras de neutralizar, minar, ou retirar o alicerce que sustenta o sistema opressor e reduzir seu poder.

O poder, no fim das contas, reside nas mãos de milhões de pessoas comuns que mantêm a sociedade funcionando sem problemas no dia-a-dia, e que podem desligá-la se assim escolherem.

Identificar a construção interna de um pilar do poder pode ajudar a determinar onde você pode ter maior impacto quando quebrar o suporte para o sistema.

Alguns desses pilares, como o exército, a polícia e os tribunais, são coercivos por natureza, atraindo obediência através da força ou da ameaça da força. Outros pilares, como a mídia, o sistema educacional e as instituições religiosas, sustentam o sistema através da influência na cultura e na opinião popular. Consequentemente, até mesmo o poder do líder mais carismático e cruel depende do apoio de instituições-chave, que são vulneráveis à ação popular ou à revogação do consentimento da população em geral.

Em fevereiro de 2011, o presidente egípcio Mubarak foi forçado a deixar o cargo quando muitos de seus importantes pilares institucionais quebraram — em especial o exército e o empresariado — ao remover seu apoio a ele. (Infelizmente, a longo prazo, a revolução egípcia foi incapaz de formar um alicerce próprio forte o suficiente para enfrentar o maior pilar do regime, o exército, que retomou o controle em um golpe em 2013.)

Em outro exemplo, uma grande virada que levou à queda do presidente sérvio Slobodan Milosevic em 2000 foi quando a polícia se recusou a aplicar suas ordens para disparar nos protestantes. Esse foi o resultado de uma estratégia deliberada pelo principal grupo de oposição, Otpor, para alcançar os policiais e lembra-los que seus familiares e amigos estavam entre os manifestantes. Deserções, especialmente nas posições militares de alto nível, são um sinal claro de que o pilar crucial de suporte começou a desmoronar.

No fim das contas, o poder não se apoia nos presidentes, generais e bilionários, mas sim nas mãos de milhões de pessoas comuns que mantêm a sociedade funcionando sem problemas no dia-a-dia, e que podem desligá-la se assim escolherem. Esse é o significado do slogan “poder popular”. Uma das principais razões para que tantas injustiças perseverem não é porque os poderosos podem simplesmente fazer o que quiserem com impunidade, mas porque a maioria das pessoas desconhecem o poder que elas podem manejar se retirarem seu consentimento.

Esse conhecimento do poder tem sido repetidamente reivindicado nas últimas décadas, já que muitos ditadores e regimes extremamente repressivos foram derrubados por pessoas desarmadas com uso mínimo de violência mas muita coragem e criatividade. Essas lutas não-violentas bem sucedidas simplesmente não podem ser explicadas por alguém que vê a violência como o mecanismo único, ou mesmo o mecanismo primário, de poder.

Como usar

  1. Desenhe um prédio, representado por um telhado que é um simples triângulo, sendo sustentado por pilares. Rotule o telhado com o nome do sistema, regime ou questão em que você está trabalhando.

  2. Identifique os “pilares” que constituem as instituições que suportam o alvo (instituições educacionais, a mídia, o exército, corporações, etc.) Comece no geral, mas refine e especifique cada pilar o máximo que conseguir. Por exemplo, se você identificar “A Polícia” ou “O Exército” como os principais pilares gerais, sub-rotular mais especificamente “Polícia Civil do Estado” ou “Forças Especiais do Presidente” te dará uma visão mais precisa do problema e uma melhor estrutura para o planejamento estratégico.

  3. Tire um momento para identificar quais pilares são mais importantes para suportar o sistema. Possivelmente alguns pilares serão maiores que outros no seu desenho, representando proporcionalmente a força de uma instituição que suporta o sistema em relação à de uma instituição menor.

Depois, compare e identifique sua habilidade de impactar ou alcançar quem constitui aqueles pilares que são ao mesmo tempo fundamentais para o sistema e vulneráveis ao seu impacto. Esses são os lugares em que a sua campanha tem maior potencial.

Os Pilares do poder são as instituições que suportam o sistema ou questão que você está enfrentando.

  1. Uma forma de determinar onde você pode ter mais potencial de impactar a força de um pilar é analisando a construção interna de cada pilar. Comece pelo desenho de um círculo que representa um corte transversal do pilar, com círculos concêntricos que você pode rotular com os indivíduos ou grupos que compõem esse pilar. Seja específico sobre os elementos da estrutura de apoio, sendo o centro o mais impactado ou poderoso (o ditador ou general pode ser o centro do pilar militar, com outra liderança no próximo círculo, depois as tropas normais, depois os veteranos, as famílias dos militares, etc.) Conforme você se afasta do centro, o poder dos grupos/indivíduos têm alterações, e suas conexões ou lealdade à instituição frequentemente diminuem. Isso te ajudará a avaliar visualmente onde você poderá ter o maior impacto em um pilar, e quais setores sociais você poderá alcançar quando tentar derrubar o apoio do sistema.

  2. Agora, use essa análise do grande plano com uma ferramenta de planejamento estratégico mais profunda e detalhada, como o Espectro de Aliados (ajudando a identificar o custo relativo de recursos para movimentar setores específicos), FOFA (correlacionando planos internos e externos) e Pontos de Intervenção (aperfeiçoando planos táticos). Usualmente existe um benefício no uso de mais de uma ferramenta ao mesmo tempo, ajudando a identificar peças que faltam e trazendo uma especificidade que ajudará a criar uma plano estratégico geral mais efetivo.

Exemplos do mundo real

Bringing Down a Dictator

Film that tells the inside story of how Milosevic was brought down by a courageous campaign of political defiance and massive civil disobedience.

By targeting the pillars that uphold police violence, Black Lives Matter is shifting power to the people

From National Guardsmen laying down their shields to bus drivers refusing to take protesters to jail, activists are tapping into a powerful principle of nonviolence resistance.

Saber mais

People Power
Lisa Fithian, 2013
CANVAS Manual
Center for Applied Nonviolent Action and Strategies, 2004
A Force More Powerful
International Center on Nonviolent Conflict, 2000
Pillars of Support
ICNC & Centre for Applied Nonviolent Action and Strategies, 2007