História

Pare o Plano Prawer

Manifestantes em Haifa sob o ataque da polícia israelense no Dia de Raiva contra o Plano Prawer. A polícia israelense usou cavalos, canhões de água e granadas de choque para dispersar os participantes. Dezenas de manifestantes foram presos e vários ficaram feridos. Foto: Activestills

Em resumo

Em resposta a um projeto de lei israelense que visava expulsar 70 mil beduínos palestinos de suas terras ancestrais, os palestinos organizaram uma campanha maciça que levou à retirada do projeto de lei.

A política oficial de Israel não reconhece os direitos dos beduínos palestinos no Negev às suas terras ancestrais e, portanto, proíbe-os de acessar os serviços de infraestrutura. Israel tenta continuamente confiscar a terra e destruir as casas e aldeias dos beduínos como meio de limpeza étnica lenta porém sistemática. O projeto de lei Prawer-Begin visava destruir 35 aldeias ao longo de 800 quilômetros quadrados de terras beduínas e limpando etnicamente 70 mil palestinos de uma só vez. Israel alegou que recebeu a aprovação dos beduínos para o plano.

Com uma maioria de quatro votos, o projeto de lei passou no Knesset (congresso nacional de Israel) em sua primeira leitura em junho de 2013. Por ser um plano de limpeza étnica em tão grande escala, isso foi visto como outro Nakba (a catástrofe palestina de 1948). O objetivo da campanha “Pare o Plano Prawer” foi impedir que o projeto Prawer passasse em sua segunda e terceira versão. O objetivo maior, é claro, foi parar as demolições de casas e a expropriação de terras dos palestinos no Negev e ver suas aldeias abastecidas com infraestrutura e serviços.

Ao contrário do que acontece em muitos outros casos, os líderes da campanha passaram a maior parte do tempo organizando ao invés de mobilizando.

Inicialmente, várias ações foram tomadas por grupos locais e partidos políticos, mas ainda assim o número de pessoas mobilizadas era baixo. Decepcionado pelo número de participantes, um grupo de jovens beduínos palestinos organizou uma campanha para garantir que o Plano Prawer não fosse aprovado.

A campanha coletou assinaturas dos beduínos em uma petição denunciando a lei, organizou uma greve geral no dia em que o comitê do Knesset visitou o Negev e, em aliança com outros grupos, pressionou os membros do Knesset a votarem contra o projeto de lei. A campanha organizou um Dia de Raiva global com ações em 34 cidades ao redor do mundo e em toda a Palestina histórica, inclusive no Negev, Haifa, Yaffa, Jerusalém, Nablus e Gaza. Todas essas atividades foram acompanhadas por forte divulgação e cobertura da mídia.

Paralelamente, todas essas ações pacíficas se depararam com violenta repressão da polícia e do exército israelense para reprimir os palestinos que resistiam sem violência à contínua limpeza étnica e à expulsão forçada de suas terras ancestrais. Durante a campanha, a inteligência israelense investigou dezenas de ativistas e prendeu muitos outros que participaram de manifestações pacíficas.

Apesar dos desafios, na véspera do Dia da Raiva, o chefe do Partido Trabalhista retirou seu apoio ao projeto de lei. Uma semana depois, o governo decidiu arquivá-lo. Os palestinos ganharam. Prawer não passou.

Teoria chave

Lógica de ação

À medida que a ação da campanha estava sendo construída, o comitê do Knesset encarregado de estudar o projeto de lei decidiu visitar o Negev e se encontrar com os chefes das tribos beduínas para provar que os beduínos aprovavam a proposta. Os líderes da campanha, juntamente com outras organizações, pediram uma greve geral e saíram às ruas quando chegou o comitê do Knesset. Desta forma, mesmo que o comitê encontrasse alguns membros da tribo para dizer que eles apoiavam o projeto de lei, números maiores indo às ruas contra a proposta falariam muito mais alto.

Tática chave

Ação distribuída

Em coordenação com o movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções, os organizadores da campanha Pare o Plano Prawer puderam enviar um chamado para a ação para grupos e organizações em todo o mundo. O acesso a essa rede já existente de grupos organizados possibilitou ações em 34 cidades em todo o mundo no Dia da Raiva. À medida que o interesse se espalhava, grupos dos quais nunca tinham ouvido falar entraram em contato com eles e se juntaram ao dia da ação. Esse acesso e articulações fizeram toda a diferença.

Princípio chave

Conheça a sua comunidade

Inicialmente, a coleta de assinaturas na petição recusando a Lei Prawer era lenta e tediosa, tendo em conta as distâncias envolvidas. As eleições do conselho municipal foram marcadas para 22 de outubro de 2013, então os organizadores sabiamente utilizaram esses pontos de intenso tráfego para coletar assinaturas do lado de fora das sedes eleitorais e, assim, viram os números na petição se multiplicarem.

Metodologia chave

Teoria da mudança

Por causa da limitação de tempo e recursos, era necessário que os ativistas escolhessem suas ações estrategicamente e investissem seus recursos restritos de forma inteligente. Apesar das muitas idéias criativas que surgiram, os líderes decidiram focar em algumas suposições, que se tornaram os princípios orientadores de suas ações e alianças. Suas quatro teorias de mudança foram que o projeto não passaria se: (1) os beduínos demonstrassem de maneira organizada que estavam contra o projeto de lei, contrariando o que dizia Prawer, (2) um grande número de pessoas pudessem ser convencidas a boicotar Israel por ser um Estado racista e de apartheid, (3) os membros do Knesset fossem pressionados por seus próprios eleitores, e (4) a capacidade de Israel de garantir ordem nas ruas fosse comprometida. Os organizadores reconheceram que somente se uma ou mais dessas quatro condições fossem realizadas, sua oposição seria levada a sério.