Metodologia

Análise narrativa de poder

A lenda do Quetzalcoatl, mostrado aqui em um mural de Diego Rivera no Palácio Nacional do México. Foto: Ken Dow | CC BY-NC 2.0

Em resumo

Todas as relações de poder têm uma dimensão narrativa. A análise narrativa de poder é uma metodologia sistemática para examinar as histórias que sustentam os poderosos, a fim de melhor desafiá-los.

Uma história comunica medo, esperança e ansiedade e, como podemos sentir isso, entendemos a moral não apenas como um conceito, mas como um ensinamento de nossos corações. Esse é o poder da história.

— Marshall Ganz

Origens

Desenvolvida na década de 2000 pelo Center for Story-based Strategy (Centro de Estratégia Baseada em História), antes conhecido como smartMeme.

Vivemos em um mundo moldado por histórias. Os seres humanos são literalmente programados para a narrativa. As histórias são os fios de nossas vidas, e eles se entrelaçam para formar o tecido das culturas humanas. Uma história pode informar ou enganar, iluminar ou entreter, ou todas as anteriores ao mesmo tempo.

Uma análise de poder tradicional fornece a mobilizadores e ativistas uma compreensão das relações de poder e da dinâmica institucional entre os tomadores de decisão e aliados. A análise narrativa de poder fornece uma estrutura para estender a análise do poder ao espaço narrativo - o reino imaterial de histórias, idéias e suposições que modelam a percepção pública da situação e das personagens envolvidas. Todas as relações de poder têm este tipo de dimensão narrativa, que muitas vezes define o que é considerado normal, bem como os limites do que é politicamente possível.

A batalha da história é baseada no reconhecimento de que a sua moeda não é a verdade, e sim o significado.

As histórias contadas pelos detentores do poder muitas vezes reforçam as suposições e crenças já existentes das pessoas e podem impedi-las de ouvir mensagens de mudança social. Uma análise narrativa do poder procura levantar os pilares ocultos dessas histórias perniciosas, de modo que uma narrativa de libertação possa melhor desafiá-las. Realidades opressivas estão enraizadas não apenas nas relações econômicas e de poder opressivas, mas também em narrativas opressivas. Nosso papel enquanto agentes de mudança é minar essas narrativas e substituí-las por novas histórias que ajudem a construir um mundo mais justo e mais livre.

A batalha da história é baseada no reconhecimento de que a sua moeda não é a verdade, e sim o significado. Ou seja, o que torna uma história poderosa não são necessariamente os fatos, mas como essa narrativa cria sentido para os corações e mentes do público. Portanto, o obstáculo para convencer as pessoas muitas vezes não é o que elas ainda não sabem, e sim o que elas já sabem. Em outras palavras, suposições e crenças podem atuar como filtros narrativos para impedir as pessoas de ouvirem mensagens de mudança social. Esse tipo de batalha narrativa procura desenterrar fundamentos ocultos dessas histórias perniciosas, para que um relato libertador possa desafiá-las de modo mais efetivo.

Por exemplo, em uma análise de poder tradicional, um grupo de vizinhos que se organiza contra uma proposta de empreendimento comercial pode identificar o prefeito e o conselho da cidade como tomadores finais de decisões – e que eles são influenciados por doações de campanha dos incorporadores e pelas opiniões dos eleitores de uma região. Em seguida, o grupo pode aprofundar esse entendimento identificando as histórias que os incorporadores estão usando para promover sua agenda. Isso significa examinar cuidadosamente a narrativa dos responsáveis pelo empreendimento em seus próprios termos: como eles enquadram o problema que dizem estar resolvendo? Quem são seus mensageiros? Como eles retratam a comunidade? Quais são suas suposições não declaradas?

Para continuar com o exemplo, os incorporadores podem ter enquadrado sua narrativa em torno de “trazer empregos para o bairro”. Com a devida clareza sobre essa abordagem, o grupo do bairro pode criar sua própria narrativa e projetar uma estratégia para isolar o projeto comercial. O grupo pode articular os mesmos pequenos empresários que o incorporador afirma representar. Ou então organizar uma feira de empregos para mostrar que existem outras formas de empregar as pessoas. Se os incorporadores estão argumentando que “você não pode lutar contra a prefeitura”, os ativistas podem construir uma narrativa da campanha que enfatize como o poder popular conquistou vitórias no passado. Em suma, o grupo desafia não apenas as forças econômicas e políticas que enfrenta, mas também as narrativas que sustentam essas forças, que as legitimam e permitem que ameacem sua comunidade.

As realidades opressivas estão enraizadas não apenas em relações econômicas e de poder, mas também em narrativas que oprimem. Nosso papel como agentes de mudança é minar essas narrativas e substituí-las por novas histórias que ajudem a construir um mundo mais justo e livre.

Originalmente publicado em Beautiful Trouble como TEORIA: Análise narrativa de poder.

Como usar

  1. Imprima a planilha “Batalha da história (Análise narrativa de poder)”.

  2. Preencha a coluna do meio, respondendo às perguntas da coluna da esquerda como se você fosse um propagandista dos bandidos.

  3. Compare essas respostas na coluna da direita com notas sobre a contranarrativa de sua própria equipe.

  4. Compartilhe os resultados da planilha com aqueles que articulam sua campanha e peça opiniões da equipe.

  5. Use a narrativa que você criou para informar como sua campanha enquadra o conflito, os personagens, as imagens e outros aspectos das ações de sua equipe.

Exemplos do mundo real

Festival of Voices

The Festival of Voices counters the singular dominant narrative concerning gender with polyphony. Women and youth to put forth their own stories.