Princípio

Empodere as pessoas, depois negocie

Em resumo

Embora uma negociação com o Estado possa desempenhar um papel na vitória dos movimentos sociais, isso depende inteiramente da resistência e determinação das pessoas em manter a pressão nas ruas, longe das mesas de negociações.

Um Estado poderoso confrontado com as demandas de um movimento social popular pode tentar negociar com você. Mas tenha cuidado! Embora negociações possam em algum momento desempenhar um papel na obtenção do que você deseja, o sucesso depende inteiramente da resistência e determinação do movimento social em manter a pressão nas ruas. Em outras palavras, em um momento de revolta popular, é muito mais importante focar na construção e sustentação de protestos do que correr para negociações paralelas.

Manifestantes estudantis no Québec, por exemplo, conseguiram revogar um aumento impopular nas mensalidades em 2012 precisamente por não terem corrido para negociar:

O tempo é o grande equalizador. Ele corre da mesma forma para ricos e pobres, para muitos e para poucos. Se entendermos isso, o tempo estará do nosso lado.

“Os ativistas estudantis entenderam que os políticos detentores do poder do Estado não se afastariam de sua pauta apenas por meio de negociações. Ao liberar o poder autônomo das pessoas nas ruas e priorizar a ação de rua em relação ao debate político, os ativistas permitiram que o impulso político independente se desenvolvesse muito além dos salões do poder. Isso deixou os políticos loucos e, no final, foi fundamental para moldar o resultado da greve.”

Movimentos extraem poder da participação – não apenas do número de pessoas, mas também do compromisso, da paixão, da energia que os participantes trazem para a luta e da diversidade de vozes e setores representados. Os movimentos precisam construir esse poder popular para garantir que suas demandas sejam atendidas. Além disso, devem cuidar para que esse poder se mantenha durante as negociações, até que um acordo seja alcançado e compromissos sejam garantidos. Mesmo assim, a participação deve ser mantida como parte integrante do processo de implementação.

Sempre que o alvo de nossas demandas quiser falar, devemos nos perguntar o que o trouxe à mesa. Talvez a mobilização inicial contra a injustiça tenha sido impressionante. Talvez ela tenha ressoado no público em geral. Talvez alguns de seus principais apoiadores tenham expressado pontos de vista divergentes. De qualquer forma, o que traz o alvo à mesa é uma dinâmica desfavorável, um entendimento de que o status quo não poderia ser mantido, não sua boa vontade.

E quando os poderosos tentam negociar, não significa que eles tenham desistido e estejam dispostos a fazer concessões. Frequentemente, eles estão apenas ganhando tempo, esperando que o movimento perca força. Antes de se sentarem à mesa, eles podem exigir explicitamente o fim dos protestos que forçaram a negociação.

Isso aconteceu com os tibetanos quando o governo chinês convidou emissários do Dalai Lama para uma rodada de negociações em 2002. A China foi escolhida para sediar as Olimpíadas de 2008 e queria silenciar qualquer crítica internacional à sua política em relação ao Tibete. Durante as rodadas iniciais do diálogo, os chineses exigiram que os protestos da cidade de Dharamsala fossem amenizados para criar uma “atmosfera propícia” para as negociações. O governo tibetano no exílio pediu obedientemente aos ativistas que adiassem seus protestos. O primeiro-ministro Samdhong Rinpoche argumentou que, uma vez iniciado o diálogo, os protestos seriam desnecessários. Entretanto, as negociações acabaram logo após as Olimpíadas. Os chineses não fizeram concessões, e Dharamsala teve seu ímpeto reduzido, sem nada para apresentar nas negociações.

O poder popular não é a única coisa que temos, é claro. Embora dependamos de recursos humanos para contrabalançar os recursos financeiros dos ricos e poderosos, há mais um recurso que devemos levar em consideração: tempo, o grande equalizador. Ele corre da mesma forma para ricos e pobres, para muitos e para poucos. Se entendermos isso, o tempo estará do nosso lado. Antes, durante e mesmo depois de negociações, não devemos permitir que o outro lado ganhe tempo, e sim usar o tempo para empoderar as pessoas.

Exemplos do mundo real

Why Occupy Wall Street isn’t about a list of demands

The critics ask: What's the goal of these protests? Everyone wants something different. Which is exactly the point.