Em resumo
Quando a resistência civil ameaça depor um ditador, esse mesmo ditador pode tentar entregar o poder a um dos seus. Isso é conhecido como Golpe palaciano, ou "falsa derrocada". ;-)
Desde o nascimento da humanidade, um punhado de opressores aceitou uma responsabilidade sobre nossas vidas que nós mesmos deveríamos ter aceitado.
— V de Vingança
Origens
O coup d’Etat, que literalmente significa "golpe de Estado", foi forjado pela primeira vez na França na década de 1640. Ele se popularizou no final do século 18 com o golpe de 18 Brumário, que estabeleceu Napoleão Bonaparte como o Primeiro Cônsul da França, encerrando a Revolução Francesa. O golpe palaciano, mais especificamente, refere-se à forma cada vez mais comum de captura do Estado no século 21, onde um regime que enfrenta a pressão de uma revolta popular engana a resistência civil expulsando seu líder nominal, mas transferindo o poder para outro. O controle permanece dentro do palácio e nas mãos da mesma elite econômica e política.
As ditaduras estão cada vez mais dissimuladas. No momento crucial em que estão prestes a desmoronar, elas passam o bastão para outros membros de seus círculos internos em vez de ceder seus tronos às demandas do povo.
As lutas populares contra a autocracia devem ficar atentas a esta manobra de “golpe palaciano” (ou “falsa derrocada”) e aprender a sustentar a resistência para além do momento de troca da equipe que está no topo.
Houve 457 tentativas de golpe em todo o mundo entre 1950 e 2010, metade delas bem-sucedidas. Isso é uma média de 1,16 golpes por país em apenas três gerações! Quer gostemos ou não, a tomada de poder faz parte do cenário político global. O fenômeno é particularmente prevalente na África, que testemunhou mais golpes do que qualquer outro continente.
As lutas populares contra a autocracia devem ficar atentas a esta manobra e aprender a sustentar a resistência para além do momento de troca da equipe que está no topo.
Mas ser descaradamente mão-de-ferro está fora de moda para o ditador do século 21. Os círculos internos das oligarquias estão cada vez mais astutos ao orquestrar golpes, trocando as posições de liderança entre si mesmos para manter o controle enquanto levam o mérito pela mudança.
Os autocratas sabem muito bem que estabelecer pretensões democráticas é um negócio lucrativo. A ajuda externa está lotada de financiamento eleitoral. Os déspotas encenam eleições para manter as aparências. Com votos fraudados muito antes da abertura das pesquisas, eles não apenas mantêm o poder como também levam um tapinha nas costas de seus patrocinadores democráticos – e, junto com isso, dinheiro e apoio. A ajuda externa para esse tipo de democracia impostora acaba por criar uma "economia do golpe".
Nos últimos anos, o golpe palaciano tornou-se o mecanismo padrão para a transição pseudo-democrática na África. Joseph Kabila, ditador da República Democrática do Congo há 18 anos, fez um acordo interno para estabelecer Felix Tshisekedi como seu sucessor, apesar do apoio popular a Martin Fayulu em 2018. No Zimbábue, enquanto esmorecia a popularidade do presidente Robert Mugabe, de 95 anos, uma facção do partido no poder que favorecia Emmerson Mnangagwa recapturou o trono em vez de organizar uma transição democrática.
A Tanzânia também dominou essa arte de mudança-sem-transição. O partido outrora socialista e pan-africanista Chama Cha Mapinduzi – o segundo partido há mais tempo no poder na África – supervisiona mudanças bastante regulares de liderança, enquanto se torna cada vez mais neoliberal e autoritário.
Às vezes, as elites continuam jogando o jogo do golpe palaciano mesmo depois de terem sido depostas. Muitas vezes, elas provocam ameaças intencionais à segurança para dizer que a transição não está funcionando e que precisam tomar o poder até que as coisas "se acalmem".
Os movimentos democráticos que mobilizam o apoio popular a mudanças mais substanciais devem ficar atentos a esse tipo de manobra autoritária. Para alcançar uma genuína transição democrática, os movimentos devem sustentar a resistência para além do momento de troca nominal da liderança.
2019 sugere que os movimentos populares estão fazendo exatamente isso: na Argélia, os cidadãos que derrubaram o ditador de quatro mandatos Abdelaziz Bouteflika seguiam nas ruas até o momento da redação deste texto, insistindo em um processo eleitoral legítimo. No Sudão, o movimento social que forçou os militares a derrubarem o ditador de longa data Omar al-Bashir está agora envolvido em uma luta feroz (ocupações, greves gerais, marchas em massa, etc.) para estabelecer um governo civil de transição, mesmo enquanto os militares tentam violentamente manter o controle.
Estamos em um momento crucial para colocar a trajetória histórica do nosso século na direção certa – longe da ingenuidade de que uma troca de bastão encenada bastará. Precisamos buscar lutas com sustentação suficiente para construir as sociedades que queremos.
Exemplos do mundo real

Facing dethronement, dictator Joseph Kabila engineered a power-sharing deal with a president less liked by Congolese citizens.

The army’s ousting of elected President Morsi was a part of the regime’s counterrevolution that began the same day Mubarak stepped down.