Metodologia

Espectro de aliados

A radicalização dos estudantes brancos do Norte que se locomoveram para o Sul para a campanha Freedom Summer (Verão da Liberdade) ajudou a desencadear uma mudança crítica na opinião pública a favor dos direitos civis nos Estados Unidos na década de 1960. Foto: Ted Polumbaum/Newseum

Em resumo

Use a análise de espectro de aliados para identificar os grupos sociais que são afetados pelo seu problema e, em seguida, concentre sua ação ou campanha em deslocar um ou mais desses grupos para mais perto de seu posicionamento.

No final, não nos lembraremos das palavras dos nossos inimigos, mas do silêncio dos nossos amigos.

— Martin Luther King, Jr.

Origens

George Lakey, em Training for Change.

Os movimentos raramente ganham dominando a oposição; eles ganham ao deslocar o apoio que a sustenta. Use uma análise de espectro de aliados para identificar os grupos sociais (estudantes, trabalhadores) que são afetados por seu problema e localize esses grupos ao longo de um espectro, desde oponentes ativos até aliados ativos, para que você possa concentrar seus esforços em deslocar esses grupos para mais perto de seu posicionamento. A identificação de partes interessadas específicas (por exemplo, não apenas estudantes, mas os alunos das faculdades públicas, e não apenas os trabalhadores, mas os trabalhadores domésticos) podem ajudá-lo a identificar as formas mais eficazes de mover diferentes grupos sociais para seu posicionamento a fim de ganhar a sua campanha.

Ao planejar sua campanha, é útil olhar para a sociedade como uma coleção de comunidades, blocos ou redes específicas, algumas das quais são instituições (sindicatos, igrejas, escolas) e, outras, menos visíveis ou coesas, como subculturas juvenis ou agrupamentos demográficos. Quanto maior a precisão com que você identificar as partes interessadas e comunidades afetadas, melhor você poderá se preparar para persuadir esses grupos ou indivíduos a se aproximarem de seu posicionamento. Você pode, então, pesar os custos relativos e os benefícios de focar em diferentes blocos.

Os movimentos não ganham ao dominar sua oposição ativa, mas sim ao deslocar o apoio que a sustenta.

Avaliar seu espectro de aliados pode ajudá-lo a evitar algumas armadilhas comuns. Alguns grupos ativistas, por exemplo, apenas se preocupam com seus aliados ativos, correndo o risco de "pregar aos convertidos"— construindo subculturas marginais incompreensíveis para o restante das pessoas e ignorando aquelas que realmente precisam convencer. Outros se comportam como se todos os que não concordam com sua posição fossem oponentes ativos, encenando uma "história dos justos" e agindo como se o mundo inteiro estivesse contra eles. No entanto, outros assumem uma abordagem de "falar a verdade ao poder", imaginando que, através do apelo moral ou da força do argumento lógico, eles podem de alguma forma conquistar seus oponentes ativos mais entrincheirados. Todas essas abordagens extremas praticamente garantem o fracasso. Movimentos e campanhas são não são conquistados ao dominar sua oposição ativa, mas sim ao deslocar cada grupo para mais perto no espectro (aliados passivos transformam-se em aliados ativos, neutros em aliados passivos e oponentes passivos em neutros), aumentando, assim, o poder das pessoas a favor da mudança e enfraquecendo a oposição.

Por exemplo, nos EUA de 1964, o Student Nonviolent Coordinating Committee (Comitê de Coordenação de Estudantes Não Violentos - SNCC), principal motor do movimento de direitos civis afro-americanos no Sul racialmente segregado, percebeu que, para vencer a segregação e alcançar direitos de voto para os negros, eles precisavam conquistar aliados ativos simpatizantes dentre os estadunidenses do Norte. Muitos estudantes do Norte eram simpáticos, mas não tinham entrada no movimento. Eles não precisavam ser educados ou convencidos: eles precisavam apenas de um convite para entrar na luta (ou, no esquema do espectro dos aliados, eles precisavam ser transferidos de aliados passivos para aliados ativos). Além disso, esses estudantes brancos faziam parte de comunidades extendidas de famílias brancas e amigos que não eram diretamente afetados pelas lutas dos sulistas negros. À medida que a luta aumentava, esses grupos poderiam ser deslocados de neutros para aliados passivos ou mesmo aliados ativos.

Com base nessa análise, o SNCC tomou uma decisão estratégica de concentrar-se em alcançar comunidades brancas neutras no Norte, envolvendo estudantes brancos simpatizantes em seu programa Freedom Summer (Verão da Liberdade). Ônibus cheios de estudantes viajaram para o Sul para ajudar com o registro de eleitores e muitos foram profundamente radicalizados no processo. Eles testemunharam linchamentos, abusos policiais violentos e multidões brancas e enraivecidas, todas respostas aos sulistas negros que simplesmente tentavam exercer seu direito de voto.

Muitos escreveram cartas para seus pais, que, de repente, tinham uma conexão pessoal com a luta. Isso desencadeou outra mudança desejada: suas famílias se tornaram aliadas passivas, por vezes trazendo com eles aliados de seus locais de trabalho e de suas redes de sociabilidade. Enquanto isso, os jovens voltaram para os estudos no outono como aliados ativos e passaram à mobilização em suas universidades - mais mudanças na direção dos direitos civis. O resultado: uma profunda transformação da paisagem política.

Essa mudança de apoio em cascata não foi espontânea; ela fazia parte de uma estratégia de movimento deliberada que, até hoje, traz lições profundas para outros movimentos.

Como usar

Utilize esta ferramenta para identificar os segmentos que podem ser movidos de um ponto a outro, bem como para avaliar os custos relativos de se alcançar, educar ou mobilizar cada um desses grupos. Não use esta ferramenta para identificar seus arqui-inimigos e ir atrás deles – as pessoas que estão no meio são aquelas nas quais você deve se concentrar. Os agrupamentos ou indivíduos que você identifica devem ser o mais precisos possível: não apenas sindicatos, por exemplo, mas sindicatos específicos. Quanto mais específico você puder ser, melhor essa ferramenta irá atendê-lo.

Veja como fazer uma análise do espectro dos aliados:

O espectro dos aliados. Arte: Joshua Kahn Russell

  1. Desenhe um meio-círculo (veja o diagrama). Rotule todo o desenho com o nome do movimento ou campanha que você está discutindo, e coloque-se no lado esquerdo, com sua oposição no lado direito.

  2. Divida o meio-círculo em cinco partes:

  • Aliados ativos, ou pessoas que concordam com você e estão lutando a seu lado;

  • Aliados passivos, ou pessoas que concordam com você, mas ainda não estão fazendo nada sobre isso;

  • Neutros, ou não-comprometidos e desinformados;

  • Oponentes passivos, ou pessoas que não concordam com você, mas não estão ativamente tentando detê-lo; e

  • Oponentes ativos, ou pessoas que não só estão em desacordo com você, mas estão se organizando ativamente contra você.

Nas seções apropriadas, coloque diferentes bases de apoiadores, organizações ou indivíduos. Gaste uma quantidade significativa de tempo refletindo sobre os grupos e indivíduos que pertencem a cada uma das seções. Seja específico: liste-os com tantas características de identificação quanto possível. E certifique-se de cobrir todas as seções, já que negligenciar seções limitará seu planejamento estratégico e sua potencial eficácia.

  1. Volte e veja se você está sendo específico o suficiente. Para cada grupo ou bloco que você listou no diagrama, pergunte-se se você poderia ser mais específico – existem mais adjetivos ou qualificadores que você poderia adicionar para dar mais definição à descrição? Você pode ser tentado a dizer "mães", mas na realidade pode ser que as "mães ricas que vivem em comunidades fechadas" pertençam a uma única seção e "mães que trabalham como vendedoras em feiras" pertencerão a outra. Quanto mais específico você puder ser, melhor esta ferramenta irá atendê-lo.

  2. Quando você se deparar com os limites de seu conhecimento, inicie uma lista de perguntas de aprofundamento — e comprometa-se a fazer a pesquisa necessária para obter as respostas.

O espectro dos aliados também pode funcionar bem em combinação com outras metodologias:

  • Primeiro, use os pilares do poder para mapear as maiores forças em jogo.

  • Combine isso com uma matriz FOFA para ajudá-lo a identificar as principais bases de apoiadores.

  • Siga com pontos de intervenção para identificar táticas e ações para envolver os principais grupos que você identificou.

Exemplos do mundo real

“Age of Consequences” Director Talks Climate Change and Security

“What we're hoping to get is not just the active allies and passive allies, but hopefully the more neutral bystanders.”

Here’s the Playbook Organizers Are Using as They Scheme to Take Down the NRA

An analysis of how the anti-National Rifle Association movement in the US utilizes the spectrum of allies method in their organizing.

Saber mais

Spectrum of Allies
War Resisters’ International
Know Your Allies, Your Opponents, and Everyone In-Between
George Lakey, Waging Nonviolence, 2012
Civil Resistance and the 3.5% Rule
Erika Chenoweth, Rational Insurgent / TEDxBoulder, 2013