Em resumo
Depois de quase uma década construindo impulso, as pessoas da Gâmbia aproveitaram uma janela de oportunidade crucial em 2016 para derrubar um famoso ditador.
Há um equívoco difundido de que a revolução gambiana de 2016 começou com as mobilizações em torno de #GâmbiaDecidiu. Entretanto, como acontece em muitas lutas, uma grande parte da mobilização de bastidores que possibilitou essa transformação se deu nos anos anteriores.
Por mais de sete anos, muitos grupos ativistas – incluindo Activista The Gambia, uma rede nacional de de juventude – treinaram milhares de jovens em construção de movimentos, campanhas estratégicas e boa governança. Sob um governo mão-de-ferro, o uso do treinamento foi um precursor estratégico da ação, uma vez que deu aos jovens ativistas a possibilidade de organizar pequenas campanhas sobre o direito à terra, direitos das mulheres e educação – campanhas essas que lentamente desafiaram as estruturas de poder existentes. Esses esforços criaram impulso e prepararam os mobilizadores para aproveitar qualquer oportunidade de transformação mais significativa no futuro (veja: PRINCÍPIO: A práxis faz a perfeição). E assim aconteceu.
Sob um governo mão-de-ferro, o uso do treinamento foi um precursor estratégico da ação.
Em abril de 2016, um protesto nas ruas que demandava uma reforma eleitoral foi considerado ilegal e violentamente dispersado pelo regime. A brutalidade do regime acendeu a faísca da raiva, o que levou um grande partido político e as massas a tomarem as ruas para demandar reformas.
Uma das muitas ações importantes que demonstraram a criatividade das mobilizações depois de abril foi a revolução calabash (também conhecida como kalama), quando as mulheres das áreas rurais protestaram com calabashes – tigelas tradicionais que simbolizam o compartilhamento. Os calabashes significavam que a liderança também deveria ser compartilhada, e que o então presidente Yahya Jammeh não deveria ser a única pessoa a beber do cabalash da liderança. Tais ações se apoiaram muito na cultura, tradição e história locais, associando os protestos a símbolos dos quais as pessoas da Gâmbia tinham orgulho.
Durante as eleições de 2016, a oposição e os grupos ativistas mobilizaram os eleitores para derrotar Jammeh nas urnas e se mobilizaram nas redes com a hashtag #GâmbiaDecide. Jammeh perdeu as eleições e aceitou a derrota declarando que "a Gâmbia decidiu" para, alguns dias depois, voltar atrás inesperadamente, tentando prolongar sua ditadura. Foi então que o chamado das mobilizações em prol de reformas mudou de #GâmbiaDecide para #GâmbiaDecidiu.
No período pós-eleições, o medo e a intimidação estavam difundidos entre as pessoas, dificultando que a coalizão nacional em defesa das eleições mobilizasse grandes números. Para conseguir que as pessoas da Gâmbia superassem seus medos, os ativistas organizaram ações com fotos e vídeos curtos afirmando que a #GâmbiaDecidiu. A coragem dos ativistas em demandar abertamente seus direitos constitucionais, apesar do risco envolvido, motivou outros cidadãos a seguirem o exemplo. O amplo apoio à reforma política era invisível. As ações populares expuseram o quão generalizado ele realmente era .
Uma lição importante que podemos tirar dessa jornada diz respeito à solidariedade internacional. O Africans Rising — um movimento pan-africano que luta por justiça, paz e dignidade — enviou uma missão de solidariedade no pico do impasse político. Boa parte das lideranças dos movimentos e da sociedade civil se reuniu e fez uma análise dos principais atores que viabilizavam o regime de Jammeh. Elas concluíram que Jammeh não conseguiria se sustentar sem o apoio de seu gabinete ministerial, pois era o conjunto do governo que lhe dava legitimidade. A missão realizou uma forte tática de bloqueio telefônico exigindo a renúncia dos ministros. Os integrantes da campanha também disseram aos ministros que eles podiam tomar duas decisões: juntar-se à revolução e permanecerem seguros em suas casas, ou se juntarem a Jammeh contra a revolução, e portanto serem forçados ao exílio quando Jammeh perdesse. Os ventos mudaram de direção e 90% dos ministros de Jammeh decidiram renunciar.
Jammeh renunciou ao poder alguns dias depois e fugiu para o exílio em janeiro de 2017.
Tática chave
Não é incomum entre ativistas a ideia de que treinamentos são uma "bom acompanhamento" para a mobilização na linha de frente quando possível. Contudo, o treinamento é um componente vital do sucesso de uma campanha. A juventude foi treinada em milhares de sessões de treinamento pela Activista The Gambia, o que deu aos ativistas a chance de criar confiança e fortes conexões umas com as outras, e a adquirir conhecimento estratégico antes de mirar em uma reforma maior.
Princípio chave
Como ativistas, com frequência não temos os mesmos recursos financeiros ou institucionais que nossos oponentes. Dessa forma, precisamos nos apoiar nos recursos que são nossa riqueza: as pessoas e a cultura, entre outros. Seja o uso de calabashes ou outras táticas alicerçadas na cultura, lançar mão dos recursos culturais foi crucial para desestruturar o regime de Jammeh: essas táticas expuseram sua "traição" a tradições gambianas caras à população do país.