Tática

Prisão cidadã

Em 2017 em Moyo, Uganda, um agente sênior da polícia foi preso por moradores locais por ter ordenado a detenção de um parlamentar local. O parlamentar havia resistido a uma proposta de mudança na constituição de Uganda que manteria no poder o presidente Yoweri Museveni.

Em resumo

O que as pessoas podem fazer quando criminosos ou agentes públicos corruptos estiverem além do alcance da lei? Hm, prendê-los! :-)

As leis são teias de aranha pelas quais as moscas grandes passam e as pequenas ficam presas.

— Honoré de Balzac

Uma prisão cidadã é um tipo de ação direta no qual as pessoas dão ordem de prisão para alguém que elas julguem ser um criminoso. Essa “prisão” pode ser física (rodear o carro de um agente público corrupto em fuga até que a polícia chegue para prendê-lo de verdade), simbólica (entregando um “mandado” de prisão ao estilo faça-você-mesmo para um CEO cujos esforços de lobby contra o sistema de saúde equivalem ao assassinato), e/ou quase legais (a prática das prisões cidadãs remete à lei comum (common law) inglesa, na qual os xerifes encorajavam cidadãos comuns a ajudar na apreensão de quem quebrava a lei).

Em 2018, em Bushenyi, Uganda, o engenheiro municipal Deus Baingana havia recebido a alocação de quase 100 mil dólares para consertar as estradas locais, mas não havia executado nada. Centenas de cidadãos indignados marcharam na sede do distrito. Ele correu para seu carro e houve confronto. Então, os cidadãos cercaram seu carro e rasgaram seus pneus (o que foi um tanto engraçado, já que aquilo tudo tinha a ver com desvio de recursos para estradas). Eventualmente, ele foi indiciado e forçado a consertar as estradas.

Em 2003, o presidente dos EUA George W. Bush e o primeiro-ministro do Reino Unido Tony Blair lançaram uma guerra não-provocada de agressão contra o Iraque que levou ao caos e assassinato em massa. Mesmo assim, mais de uma década depois, nenhum deles foi responsabilizado por seus crimes. Essa grave injustiça levou o jornalista britânico George Monbiot a lançar o Arrest Blair, inspirando um número considerável de cidadãos de tentar fazer prisões cidadãs de Blair. Embora o primeiro-ministro não tenha concordado em encaminhar-se voluntariamente até a delegacia local, essas “prisões” chamaram a atenção para os hediondos crimes de guerra de Blair e desafiaram a cultura de impunidade que ajudou a viabilizá-los.

Como no humor, onde você quer “bater nos de baixo, não nos de cima”, a prisão cidadã é uma maneira dos menos poderosos responsabilizarem os mais poderosos.

Comparado ao exemplo mais “áspero” e militante de Bushenyi, Arrest Blair é uma versão “branda” da tática, mais teatral, performática e simbólica. Outros exemplos brandos incluem a cena de Capitalismo: Uma história de amor na qual o diretor de performances políticas Michael Moore tentou fazer uma prisão cidadã de todo mundo em Wall Street. De forma similar, em 2009, este autor se envolveu em uma ação de Esquadrão Cidadão em que um esquadrão VIP de vários presidentes de sindicatos tentou adentrar um hotel em Washington DC onde executivos de empresas de planos de saúde estavam entocados. A intenção era fazer prisões cidadãs pelo crime de homicídio culposo por sua conspiração para barrar a reforma do sistema de saúde.

As versões branda e áspera da prisão cidadã envolvem níveis muito diferentes de risco e variam consideravelmente de país para país e de contexto para contexto. Deve-se notar também que, infelizmente, a tática também pode ser usada pelos mais poderosos (e possivelmente racistas) contra pessoas mais vulneráveis ​​– por exemplo, em 2019, quando vigilantes ao longo da fronteira EUA-México realizaram uma “prisão em massa” de migrantes e refugiados. Isso que suscita a pergunta: que tipo de ética deve orientar nosso uso da prisão cidadã? Aqui está um começo para a discussão:

Prenda os de cima, não os de baixo – Como no humor, onde você quer “bater nos de baixo, não nos de cima”, a prisão cidadã é uma maneira dos menos poderosos responsabilizarem os mais poderosos.

Não violência – Isso não é um sequestro, operação clandestina ou ato de terror ou intimidação, e não deve passar essa sensação.

Intencionalidade – Explicitem suas motivações. Planejem com cuidado. Mantenham-se unificados. Sigam os protocolos legais e culturais envolvidos – ou, se optarem por superá-los, façam-no com sabedoria e propósito.

Transparência – Realize a prisão em público e à luz do dia. Indique claramente suas razões e apresente suas evidências. Até convide o público a testemunhar a prisão (e/ou participar dela).

Fundamentação – Cumpra os requisitos legais. Certifique-se de que sua justificativa para a "prisão" é sólida (e, se necessário, passou por extensa pesquisa).

Quando realizamos uma prisão cidadã, estamos literalmente (e simbolicamente) fazendo justiça com nossas próprias mãos. Isso é ocasionalmente necessário, geralmente empoderador e potencialmente perigoso. Se formos explícitos a respeito dos nossos objetivos e seguirmos diretrizes éticas fortes, a justiça estará em boas mãos.

Princípio chave

Mantenha uma disciplina não violenta

Ao planejar uma prisão cidadã, saiba que seus oponentes irão rotular você como hooligan indisciplinado independentemente do que você fizer – mas não facilite para eles. Mantenha a não violência e a disciplina. Mas também saiba que essa disciplina terá diferentes aparências em diferentes contextos. Quando Baingana foi preso em Uganda por desviar dinheiro de impostos, os pneus de seu carro foram rasgados para que ele não pudesse escapar. Ninguém foi acusado de destruição de propriedade. Eventualmente, os cidadãos o agarraram e o entregaram à polícia. Nos EUA, no entanto, a lei diz que quem realiza prisões cidadãs não deve tocar fisicamente na pessoa que é presa sem seu consentimento.

Direitos legais, fatores culturais e afins devem ser levados em conta para determinar exatamente como uma prisão cidadã deve ser realizada. Leve em conta esses e outros fatores contextuais ao decidir quando o uso da força é estrategicamente autorizado e o que pode qualificar como violência um uso específico da força.

Exemplos do mundo real

The Bitter Irony of Tony Blair's Response to My Citizen's Arrest

British DJ and barkeep tries to arrest ex-Prime Minister Tony Blair for war crimes.

Saber mais

How to Make a Citizen’s Arrest
Malia Wollan, The New York Times, 2016