História

As taxas têm que cair

Pretória, África do Sul, em 23 de outubro de 2015. Foto: Paul Saad | CC BY-NC-ND 2.0

Em resumo

O aumento das taxas de matrícula das universidades suscitou um movimento estudantil nacional na África do Sul que demandou uma ampla reforma e questionou o status quo político, social e econômico da "nação arco-íris."

A partir de uma relativa obscuridade, cada geração deve descobrir, completar ou trair sua missão.

— Frantz Fanon

Em 14 de outubro de 2015, estudantes e funcionários da Universidade de Witwatersrand ocuparam o prédio da administração e impediram o acesso à universidade em resposta à intenção de aumentar as taxas de matrícula. A tropa de choque da polícia prendeu mais de 25 estudantes, fazendo com que outros mil se reunissem de um dia para o outro na delegacia local e exigissem a liberação de seus companheiros.

Dentro de uma semana, os protestos se espalharam pelas universidades de todo o país não só contra as taxas, mas também para demandar uma reforma maior nas questões estudantis. Posteriormente, os protestos se uniram sob o guarda-chuva #Astaxastêmquecair, marcando a emergência do primeiro grande movimento estudantil da África do Sul desde o levante do Soweto, em 1976.

Embora seja retratado como um movimento de pauta única, "#Astaxastêmquecair" foi uma manifestação da insatisfação geracional e a deslegitimação das contradições ideológicas, políticas e morais do governo pós-colonial da África do Sul.

Na Universidade de Stellenbosch, os estudantes protestaram contra o uso da língua africâner como um meio de ensino acadêmico. Na Universidade da Cidade do Cabo, os protestos #Rhodestemquecair problematizaram a contínua celebração de Cecil Rhodes, que representa o violento passado da África do Sul sob o colonialismo e apartheid. Os estudantes depredaram e exigiram a remoção da estátua de Rhodes do campus. Na universidade conhecida atualmente como Rhodes (UCKAR), as estudantes mulheres vítimas de violência sexual expuseram os crimes dos estudantes homens ao publicar anonimamente uma lista de perpetradores, episódio que ficou conhecido como a #ListadereferênciaRU.

Uma das famosas máximas do movimento foi "essa revolução será interseccional ou não será." Alicerçado nessa máxima, o movimento "As taxas têm que cair" também engajou-se em solidariedade com outras lutas, inclusive naquela pelo #FimdaTerceirização, que abordou as demandas dos faxineiros, cozinheiros e jardineiros das universidades por um salário digno.

A despeito da máxima interseccional, alguns elementos do movimento foram resistentes a protestos relacionados às questões de gênero. Conforme esperado de uma revolta política tão progressista, movimento dirigiu suas críticas tanto para dentro quanto para fora. As movimentações ideológicas internas levaram à formação de grupos como o #Patriarcadoemquecair e #Acabecomaculturadoestupro por feministas interseccionais para combater o real silenciamento de questões de gênero nas políticas nacionais . O governo respondeu a esses protestos com repressão e aumento de segurança nos campi. Muitos e muitas estudantes que participaram dos protestos sofreram detenção, prisão, estupro e até mesmo assassinato. Outros, inclusive funcionários, foram suspensos ou expulsos por exporem as violências sexuais. A emergência de grupos de estudantes feministas separados destacou tanto a falta de interseccionalidade dentro do movimento "Astaxastêmquecair", quanto um comprometimento à interseccionalidade por parte dos quadros femininos do movimento. (veja: TEORIA: Feminismo).

Embora seja retratado como um movimento de pauta única, "#Astaxastêmquecair" foi uma manifestação da insatisfação geracional e a deslegitimação das contradições ideológicas, políticas e morais do governo pós-colonial da África do Sul . Os estudantes estavam insatisfeitos com o padrão político no qual aqueles que um dia lutaram pela liberdade e dignidade da maioria da população negra se tornaram uma elite dominante cooptada pelo capital global que perpetuou a supremacia branca e transformou serviços essenciais, como a educação, em mercadorias em prol do lucro. Os protestos dos estudantes conceberam um movimento que exigiu a descolonização de cada aspecto da vida da sociedade sul-africana.

O aumento das taxas de matrícula em 2015/2016 foi revogado somente para ser anunciado novamente no ano acadêmico seguinte, o que gerou uma nova onda de protestos em 2016 e 2017 e fez com que o governo eventualmente cedesse às demandas dos estudantes. O governo anunciou que os estudantes pobres e de classe trabalhadora teriam acesso gratuito ao ensino superior — uma decisão que, em agosto de 2019, ainda não havia sido implantada.

Teoria chave

Interseccionalidade

o movimento “Astaxastêmquecair" se envolveu em lutas não relacionadas aos estudantes, como a luta por melhores salários aos trabalhadores da universidade, e demandou reformas não relacionadas às taxas de matrícula, desde mudanças no currículo acadêmico até o enfrentamento do patriarcado. Contudo, a interseccionalidade não se refletiu completamente nas políticas internas do movimento, uma vez que os quadros femininos viram as questões de gênero serem empurradas às margens, inclusive com algumas estudantes mulheres enfrentado assédio de estudantes homens até mesmo durante os protestos.

Tática chave

Ação distribuída

Os protestos“Astaxastêmquecair” se espalharam por todas as universidades da África do Sul em uma semana, inclusive com diferentes universidades e campi decidindo de forma independente em quais ações se envolveriam. Ao descentralizar o movimento, suas ações e o processo de tomada de decisão, o movimento "Astaxastêmquecair" dificultou uma resposta coordenada do estado e criou obstáculos para que qualquer grupo interno conseguisse usurpar o movimento por dentro.

Princípio chave

Crie uma sinergia online-offline

Os estudantes levantaram questões coletivas e se envolveram no debate do movimento "Astaxastêmquecair usando várias hashtags consolidadas; no entanto, eles se organizaram em todos os campi mediante conexões e mobilizações offline. Os estudantes usaram plataformas como o Twitter, Facebook e Whatsapp para se comunicar, obter atualizações de ações em tempo real e para fazer chuvas de ideias acerca de quais ações reproduziriam em seus campi sob uma frente comum.

Saber mais

The Johannesburg Salon
The Salon, Vol 9 - JWTC (Johannesburg Workshop on Theory and Criticism), 2015