História

Escolas de luta

Estudantes da Escola Estadual Maria José envoltos em fita de isolamento, representando a seu silenciamento e imobilização pelo governo. Foto: Arianne Vitale Cardoso.

Em resumo

Estudantes ocuparam mais de 200 escolas em São Paulo, Brasil, para protestar contra o plano do governador que previa o fechamento de escolas, forçando-o a voltar atrás e iniciando uma onda de resistência estudantil pelo país.

Em setembro de 2015, o governador de São Paulo, o estado mais rico do Brasil, anunciou a chamada “reorganização” das escolas públicas: concentração dos estudantes em um número menor de escolas maiores para reduzir custos. Esta medida teria levado ao fechamento de 94 escolas e a transferência de 311 mil estudantes e mais de 74 mil professores, muitos dos quais seriam realocados em escolas distantes de suas casas. A decisão foi tomada sem nenhuma consulta prévia dos professores, estudantes ou suas famílias. E, o que é ainda pior, o plano não abordava os graves problemas enfrentados pelo sistema de educação pública como a falta de professores, a falta de segurança, a superlotação de salas de aula, a deterioração da infraestrutura e a qualidade da merenda – pelo contrário, somente agravava esses problemas.

Em resposta ao plano anunciado, e depois que os protestos de rua e os apelos ao secretário de educação feitos por conselheiros municipais e diretores regionais de educação foram recebidos com silêncio, estudantes da Escola Estadual de Diadema decidiram ocupar sua escola, localizada na região metropolitana da capital. No dia seguinte, estudantes da Escola Estadual Fernão Dias Paes, localizada no centro de São Paulo, fizeram o mesmo.

As ocupações logo se converteram nos espaços educacionais que os estudantes sempre haviam desejado.

O governo do estado fez diversas tentativas de intimidar e desmoralizar os estudantes. Ordenou a reintegração de posse de ambas as escolas, decisão que foi logo revertida por um tribunal estadual, sustentando o direito dos secundaristas ao protesto. A Polícia Militar do estado aparecia constantemente nas ocupações, ameaçando os manifestantes e causando perturbação. E as autoridades alimentaram uma campanha midiática para retratar os estudantes como vândalos que estavam destruindo e saqueando a propriedade escolar.

Contudo, a repressão só aumentou o apoio público aos estudantes: às demonstrações de apoio de suas famílias e professores rapidamente se juntaram artistas, jornalistas, formadores de opinião, sindicatos, movimentos sociais e outros grupos. A indignação pública gerada pelos ataques do governo e da polícia foi o gatilho para uma onda massiva de ocupações nas escolas: nas semanas seguintes, 213 escolas em todo o estado foram ocupadas por estudantes que se opunham ao plano de “reorganização”.

As ocupações logo se converteram nos espaços educacionais que os estudantes sempre haviam desejado. Todos os dias havia uma agenda agitada de atividades como palestras, debates, aulas públicas e oficinas sobre uma infinidade de temas (como questões de gênero, democracia direta, cultura digital, educação ambiental, permacultura, drogas e redução de risco, idiomas, etc.), a maioria das quais era facilitada por pessoas voluntárias. Além disso, os secundaristas se certificaram de que tarefas básicas como cozinha, limpeza e segurança fossem executadas de forma coletiva e auto-organizada. A experiência autônoma e colaborativa representou uma clara oposição ao discurso de austeridade do governo e era uma amostra prática da qualidade que o sistema de educação havia falhado em fornecer. À medida que as ocupações cresciam, não havia sinal de que o status quo prevaleceria sobre um movimento estudantil autônomo e auto-organizado que havia transformado em realidade o ideal de uma educação livre e democrática.

Em dezembro, dois meses após as primeiras ocupações, o governo do estado finalmente anunciou a suspensão do plano de reorganização escolar. No dia seguinte, o secretário de educação renunciou. O levante dos estudantes havia lançado um debate sobre o papel da democracia nas escolas e o verdadeiro significado de educação pública. Os secundaristas e seus apoiadores emergiram como uma coalizão forte, capaz de responder rapidamente a ataques futuros à educação. E, melhor de tudo, o movimento se espalhou para além do estado: nos meses seguintes, as ocupações tomaram uma série de outros estados do Brasil, alcançando mais de mil escolas em protesto contra a precariedade da infraestrutura e da merenda, a falta de qualidade e transparência e a privatização da educação, bem como reivindicando o passe livre estudantil.

Teoria chave

Lógica de ação

Quando os estudantes demonstraram que a educação pública de qualidade podia ser implementada sem desculpas de cunho político ou econômico, tornou-se fácil para o público compreender o que estava acontecendo: os estudantes estavam mantendo suas escolas abertas para manter as escolas abertas.

Tática chave

Ocupação

As ocupações foram inicialmente planejadas para defender as escolas contra o fechamento, mas acabaram também servindo como pólos de ativação de uma rede de solidariedade em torno do levante dos secundaristas. Quase todos os aspectos da vida cotidiana nas ocupações era realizado coletiva e voluntariamente, de necessidades básicas como alimentação e materiais até oficinas e aulas. Assim, a própria tática serviu como uma forma de ampliar o movimento e angariar apoio.

Princípios chave

O café da manhã é persuasivo

Os secundaristas usaram as ocupações para construir as escolas que sempre haviam desejado. Eles organizaram uma ampla e rica agenda de aulas, mostrando o quão falacioso era o argumento de que os estudantes não se importam com seus estudos. Enquanto o governo os chamava de vândalos, eles consertavam o que estava quebrado com a ajuda voluntária da comunidade.

Escolha táticas que apoiam sua estratégia

A ocupação não era a única tática empregada pelos estudantes. Para acumular ainda mais pressão, eles utilizaram outras ações simultâneas, como bloqueios de rua em grandes avenidas de São Paulo, festivais de música com o apoio de artistas famosos, manifestações de massa e intervenções criativas.

Use seus recursos culturais

Os secundaristas criaram e gravaram canções, muitas das quais eram adaptações de músicas de funk amplamente populares. As intervenções eram potencializadas por uma ágil e impactante comunicação nas mídias sociais, mídia independente e o uso de celebridades, o que constituiu uma alternativa confiável à grande imprensa. Atualizações sobre cada ocupação eram postadas a cada hora e um canal foi desenvolvido para conectar apoiadores e emitir chamados para a ação.

Saber mais

Educação Ocupada
Vice, 2015-2016
Escolas de Luta
Editora Veneta, 2016
A Batalha do Vivo
Grupo Contrafilé, 2016