Em resumo
A recusa deliberada e pública de comida e às vezes água como um protesto moral contra a injustiça e o abuso de poder. Uma única pessoa ou centenas de pessoas em solidariedade podem entrar em uma greve de fome.
Uma greve de fome… significa que você vai recusar comida até que esteja quase morrendo, e então as autoridades terão de escolher entre deixar você morrer ou deixar você sair da prisão.
A greve de fome é uma clássica tática não violenta de pressão usada durante séculos por ativistas de todo o mundo. Na verdade, é tão essencial ao kit de ações diretas que é a única tática não violenta, entre os 198 métodos de Gene Sharp, dividida em subtáticas. Contudo, sua essência é muito simples: parar de comer.
Todas as pessoas precisam se alimentar. Ao se recusar a fazê-lo até que uma injustiça seja corrigida, você tem grandes chances de exercer pressão suficiente para forçar um alvo poderoso a ceder às suas demandas.
Usada de forma estratégica, uma greve de fome pode não só chamar atenção para uma situação de injustiça ou violação de direitos, mas também elevar a causa e a credibilidade daqueles que escolheram adotar uma ação com riscos tão pessoais. Isso lhes dá mais influência na negociação.
Há 100 anos, as sufragistas do Reino Unido e dos Estados Unidos usaram as greves de fome (quase sempre prolongadas e feitas na cadeia) como uma tática de pressão na luta pela garantia do direito das mulheres ao voto. Ambos os governos responderam alimentando à força as prisioneiras de forma terrível.
Uma greve de fome é um ato individual e moral muito poderoso, mas também é uma tática com o objetivo de impulsionar uma causa.
Para Gandhi, fazer jejum era tanto uma tática de pressão política, quanto uma parte espiritual da sua filosofia satyagraha de não violência. Ele jejuou 17 vezes durante a luta pela independência indiana e novamente contra a violência pública depois da Partição da Índia. Durante seu jejum mais longo (21 dias), os britânicos se preocuparam com a empatia que aquilo poderia gerar e proibiram a circulação de qualquer fotografia dele.
Em 1981, durante uma greve de fome prolongada em prol de melhores condições e reconhecimento político, dez presos do Exército Republicano Irlandês (IRA) morreram, inclusive o líder da greve, Bobby Sands (depois de 66 dias), que fora eleito para o parlamento durante a greve. A greve radicalizou as políticas nacionalistas irlandesas, elevando o Sinn Féin a um partido político de massa.
Em 2011, uma série de greves de fome bastante publicizadas e que ocorreram fora da sede administrativa do governo indiano (algumas feitas por funcionários da receita federal que se tornaram ativistas) levou à passagem de grandes medidas anticorrupção e varreu o partido recém criado Common Man do poder nas eleições municipais de Nova Déli.
Em 2016, 17 prisioneiros políticos de Angola, inclusive Luaty Beirão (conhecido como Ikonoklasta, sua persona musical) protestaram contra sua prisão fazendo uma greve de fome de 36 dias – um dia por cada ano que o então ditador-presidente José Eduardo dos Santos estava no poder. O protesto (que depois ficou conhecido como o Angola 15+2 conquistou visibilidade internacional e o regime foi pressionado a liberar os prisioneiros. Enfraquecido por esta capitulação e com a opinião pública nacional e internacional polarizada contra ele, José dos Santos renunciou no ano seguinte.
Às vezes, as greves de fome são realizadas por pessoas que estão na linha de frente de alguma injustiça (por exemplo, os 30 mil prisioneiros da Califórnia que entraram em uma greve de fome em massa contra o confinamento solitário em 2013); às vezes, são feitas por aliados (como no caso dos famosos líderes religiosos em solidariedade aos trabalhadores rurais da Flórida que faziam parte do Boicote ao Taco Bell.
Uma greve de fome funciona melhor quando faz parte de um conjunto de outras táticas bem pensadas (e estratégicas), tais como jejuns solidários e vigílias. Em algumas situações, exige-se uma mobilização massiva para forçar um oponente extremamente impassível a ceder. Foi o caso em 2012, quando o Movimento dos Prisioneiros Políticos da Palestina organizou 1.800 detentos espalhados em várias prisões israelenses para começarem uma greve de fome coordenada.
Antes de começar uma greve de fome, você deve fazer perguntas básicas, como: você está agindo sozinho ou como parte de um grupo? Quem você está tentando influenciar, e será que essa tática será efetiva nesse caso? E, além disso, qual é seu plano B?
É essencial tornar a greve pública e, principalmente, subir o tom da pressão à medida que as apostas sobem e a atenção pública cresce. Nas greves de fome do IRA em 1981, Bobby Sands deu o primeiro passo, mas, gradualmente, outros grevistas se juntaram para proporcionar o máximo de pressão e apoio públicos.
Além de tais considerações táticas, você sempre tem que perguntar: O que você está disposto a arriscar e o quão longe você está preparado a ir? Como a Sra.Pankhurst disse há mais de cem anos: "Somente pessoas que sentem a opressão de forma intolerável" devem adotar essa tática tão extrema.
Princípios chave
Uma greve de fome pode ser uma forma poderosa (e arriscada) de colocar seu oponente em um dilema de decisão. Caso sua greve seja capaz de obter a simpatia do público, então você estará basicamente forçando seu alvo a escolher entre ceder às suas demandas ou ser visto como um vilão sem coração que deixou uma pessoa corajosa e com moral sofrer e morrer.
A atenção internacional, assim como líderes religiosos solidários, podem ter um papel essencial para enaltecer sua greve de fome e aumentar a pressão moral. A ONU, as organizações de direitos humanos como a Anistia Internacional e até mesmo a Cruz Vermelha podem ser aliados em potencial.
Exemplos do mundo real

The story of how hunger strikes gave birth to the Aam Aadmi Party and a powerful anti-corruption movement in India.

A hunger strike started to raise money for the sick and hungry then became a protest against the complacency of privileged Christians.

The release of a political prisoner who waged a 266-day hunger strike restores hope for Palestinians.