Teoria

Hegemonia cultural

Quando hegemônica, a cultura se torna “senso comum” para a maioria da população.

Em resumo

O capital mantém a hegemonia não somente por meio do poder puro — propriedade, leis, armas — mas também por meio da cultura, moldando o que parece ser o “senso comum”. Ao criar uma nova sociedade, devemos também criar um novo senso comum.

A realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida. Enunciada dessa forma, a frase soa como uma platitude

— mas é fato que, nas trincheiras do dia a dia da existência adulta, lugares comuns banais podem adquirir uma importância de vida ou morte." - David Foster Wallace

Origens

Antonio Gramsci; desenvolvido por Stuart Hall.

Hegemonia cultural é um termo cunhado por Antonio Gramsci, ativista, teórico e fundador do Partido Comunista Italiano. O conceito foi concebido enquanto Gramsci esteve preso pelos fascistas e estava preocupado com o funcionamento do poder – como ele é exercido por quem está no comando e de que forma é conquistado por quem deseja mudar o sistema. A ideia dominante na época entre radicais marxistas como ele era que, para alcançar o poder, seria necessário se apoderar dos meios de produção e administração – ou seja, assumir o controle das fábricas e do Estado. Mas Gramsci reconheceu que isso não era suficiente. Em sua juventude, ele havia testemunhado trabalhadores tomarem as fábricas de Turim, apenas para devolvê-las semanas depois por não saberem ao certo o que fazer – com elas e eles mesmos. Gramsci também havia observado a habilidade da Igreja Católica em exercer seu poder e manter a fidelidade da população. Percebeu que, para criar e manter uma nova sociedade, é preciso criar e manter uma nova consciência.

O repositório da consciência é a cultura. Isso inclui tanto a cultura no sentido estético quanto no sentido antropológico – normas, costumes e discursos que compõem nossa vida cotidiana. Nesse sentido, a cultura é o que nos permite navegar em nosso mundo, guiando nossas noções de certo e errado, bonito e feio, justo e injusto, possível e impossível. Você pode ser capaz de tomar uma fábrica ou invadir um palácio, mas, a menos que esse poder material seja respaldado por uma cultura que reforce a noção de que você está fazendo algo bom, belo, justo e possível, qualquer ganho nas trincheiras econômica, militar e política provavelmente terá vida curta.

Envolta em narrativas, imagens e figuras de linguagem, a cultura é uma política que não se parece com política, tornando-se, portanto, muito mais difícil de perceber e muito menos difícil de resistir.

Parte do poder da hegemonia cultural reside em sua invisibilidade. Ao contrário de um soldado armado ou de um sistema político respaldado por uma constituição escrita, a cultura reside dentro de nós. Ela não parece “política”, é apenas aquilo de que gostamos, que achamos bonito ou nos faz sentir confortáveis. Envolta em narrativas, imagens e figuras de linguagem, a cultura é uma política que não se parece com política, tornando-se, portanto, muito mais difícil de perceber e muito menos difícil de resistir. Quando se torna hegemônica, a cultura se torna “senso comum” para a maioria da população.

Nenhuma cultura, no entanto, é completamente hegemônica. Mesmo sob os sistemas de controle mais completos, existem bolsões do que Gramsci, e mais tarde Hall, chamou de culturas “contra-hegemônicas”: modos de pensar e fazer com potencial revolucionário porque vão contra o poder dominante. Para Gramsci, essas culturas podem estar localizadas nas crenças camponesas tradicionais ou no dia a dia do chão de fábrica dos trabalhadores industriais. Para Hall, podem ser encontradas em subculturas juvenis, como rastafáris e punks, e inclusive no entretenimento comercial. O trabalho do ativista, de acordo com Hall, é identificar e explorar esses bolsões culturais, construir uma contracultura radical dentro da velha sociedade e travar a luta por uma nova hegemonia cultural.

Uma ressalva importante: Gramsci nunca acreditou que o poder cultural por si só fosse suficiente. A luta pela hegemonia cultural deve fazer parte de uma estratégia global que incorpore também as lutas pelo poder político e econômico.

Originalmente publicado em Beautiful Trouble.

Exemplos do mundo real

Indian Women Are #HappyToBleed

Indian women defy taboo and restrictions on their behavior by speaking openly about menstruation and asserting they are #HappyToBleed.