História

#​This​Flag

O Pastor Evan Mawarire abraça a bandeira do Zimbábue, recuperando seu significado enquanto símbolo de liberdade e dignidade.

Em resumo

O clamor de um indivíduo por um futuro melhor inspirou os cidadãos do Zimbábue a encontrar coragem e derrubar um ditador cruel.

Se não conseguimos inspirar os políticos a mudarem, então precisamos inspirar os cidadãos a ousarem.

— Evan Mawarire

Por conta dessa crise, eu não apenas não estava conseguindo pagar as mensalidades escolares das minhas filhas, como também estava enfrentando a possibilidade real de não poder colocar comida na mesa para elas. Eu não podia mais tolerar o que nosso país se havia se tornado. Queria que todos soubessem que eu estava farto! Apoiei meu telefone na Bíblia, abracei a bandeira e comecei a gravar um vídeo, que depois enviei para minha conta do Twitter, relembrando o significado das cores da bandeira do Zimbábue.

Quando crianças, fomos ensinados que a nossa bandeira representava uma promessa de prosperidade por meio da produção agrícola (verde), da riqueza de minerais (amarelo), da luta pela independência (vermelho), da dignidade da população negra (preto) e da paz (branco). No entanto, o Estado estava comprometendo literalmente tudo o que essa bandeira representava.

O “grande momento” do movimento #ThisFlag chegou quando as pessoas estavam prontas para tirar essa batalha da internet e sair às ruas.

Milhares de pessoas começaram a compartilhar o vídeo e repostá-lo em outras plataformas de redes sociais como YouTube e o Facebook. O vídeo ecoou as dores e esperanças dos zimbabuanos e as frustrações e aspirações dos cidadãos comuns. As pessoas estavam se envolvendo com o vídeo porque ele expressava a verdade delas, mas mais ainda porque elas queriam recuperar a sua história. Ao longo de décadas, o significado original da bandeira do Zimbábue foi perdido, transformado em um símbolo usado e abusado por uma elite dominante para acusar dissidentes de traição ou deslealdade. Mas as pessoas queriam recuperar a promessa da bandeira e tornar a prosperidade no Zimbábue uma realidade (veja: PRINCÍPIO: Recapture the flag).

Nós sabíamos que todas as pessoas que haviam previamente tentado se opor ao regime haviam desaparecido ou sido feridas. Mesmo assim, dois amigos e eu montamos um plano para transformar a energia viral em torno do vídeo em ação. O medo era generalizado devido à repressão estatal, então nossa primeira missão foi quebrar silêncio devagar, mas continuamente. Primeiro, pedimos às pessoas para tirar selfies com a bandeira do Zimbábue e publicá-las em suas contas nas redes sociais com as palavras "Hatichada, Hatichatya" (“já tivemos o suficiente; não temos medo” em Shona) usando a hashtag #ThisFlag. Depois, nós mesmos prometemos postar um vídeo todos os dias (veja: PRINCÍPIO: Build strength through repetition) até o Dia da África. Queríamos incentivar as pessoas a imaginar o impossível e entender o desafio ao regime como seu dever moral individual.

Na época, os protestos de rua eram ilegais, então a ação de selfie se tornou uma maneira dos manifestantes se reunirem virtualmente e construírem coragem. Agora, era hora de trazer essa euforia virtual para o mundo real. Começando com atos sutis de desobediência [] (Se o protesto for ilegal, faça da vida diária um protesto), as pessoas começaram a carregar a bandeira do Zimbábue com elas por toda parte – nas escolas, ruas e até supermercados. O “grande momento” do movimento #ThisFlag chegou quando as pessoas estavam prontas para tirar essa batalha da internet e sair às ruas (veja: PRINCÍPIO: Crie uma sinergia online-offline).

Em 25 de maio, o último dia da campanha de vídeos e Dia da África, o movimento começou a atacar as instituições do regime. Desafiamos o presidente do Banco da Reserva a participar de um debate público e, para nossa maior surpresa, ele aceitou o desafio. Mais de mil pessoas compareceram ao debate, marcando o primeiro encontro físico de grande escala do movimento. Como, tecnicamente, as pessoas haviam sido convidadas por um oficial do governo, a polícia não pôde reprimir a reunião(veja: PRINCÍPIO: Use the law, don’t be afraid of it). Depois disso, uma ação levou a outra até que nosso movimento convocou uma greve geral em 6 de julho de 2016. Os protestos de rua ainda eram ilegais, mas nove milhões de pessoas em todo o Zimbábue permaneceram em casa, causando um apagão total no país.

Em novembro de 2017, ações e protestos generalizados liderados por vários grupos e movimentos juvenis que irromperam na sequência do #ThisFlag encerraram os 37 anos de governo mão-de-ferro de Robert Mugabe.

O #ThisFlag não sou eu, Evan Mawarire; ele é toda pessoa que assumiu a responsabilidade de agir dentro da sua capacidade individual. #ThisFlag é um movimento de e para todos os indivíduos do Zimbábue, todas as organizações, todos os partidos e sindicatos do Zimbábue que lutam pela liberdade e por uma vida digna. Conseguimos uma importante vitória em novembro de 2017, mas nossos objetivos mais amplos ainda não foram alcançados e nossa luta continua.

Teoria chave

Al faza'a (uma onda de solidariedade)

Após 35 anos sob Mugabe, a maioria dos zimbabuanos havia normalizado sua raiva do regime e adaptando-se às circunstâncias econômicas insuportáveis. Mas a inserção de atos corajosos no confronto ao regime – de vídeos e selfies a ações posteriores na rua – serviu como um gatilho emocional que levou as pessoas a sentirem o calor de agir na hora, mesmo que momentaneamente. Isso desempenhou um papel crítico no alcance de uma greve nacional de 9 milhões de pessoas.

Tática chave

Campanha de hashtag

O posicionamento político da campanha foi estrategicamente incorporado em suas principais hashtags. A hashtag #ThisFlag recuperou o orgulho nacional dos zimbabuanos, revisitando o significado da sua bandeira e sua história de libertação. As hashtags secundárias #Hatichada e #Hatichatya criaram um sentimento de pertencimento a uma comunidade que estava pronta para agir coletivamente.

Princípios chave

Busque segurança em redes de apoio

Quando fui preso pela primeira vez, centenas de pessoas se reuniram na prisão para exigir minha libertação. A multidão foi transmitida ao vivo do lado de fora do tribunal. Isso, junto com a gravação do incidente da prisão, criou um alto nível de exposição que protegia os ativistas de uma resposta brutal do regime.

O timing é tudo

O levante popular que levou o #ThisFlag à vitória foi uma bomba-relógio de condições econômicas extremas. O movimento cronometrou suas escaladas estratégicas para coincidir com datas especiais como o Dia da Independência do Zimbábue. Além disso, a greve geral foi convocada assim que o governo ficou sem dinheiro, parando de pagar os salários dos funcionários públicos e professores e aumentando o assédio contra motoristas de microônibus e táxis.