Teoria

Neoliberalismo

“Desculpe, o estilo de vida que você pediu está fora de estoque”: o artista grafiteiro Banksy ilustra os limites da mentalidade neoliberal.

Em resumo

O neoliberalismo, teoria dominante nos dias de hoje, reduz o Estado a um servo do capital transnacional. Perseguindo de forma implacável a privatização dos bens comuns, suas políticas inevitavelmente provocam o descontentamento popular.

O projeto neoliberal não é de forma alguma um projeto econômico, mas sim um projeto político construído para devastar a imaginação e, quiçá, (…) destruir a ordem capitalista em si mesma, se é isso que for preciso para parecer que era inevitável.

— David Graeber

Origens

O liberalismo foi a economia filosófica do capitalismo “laissez-faire” que surgiu nos anos de 1970. Quase 100 anos depois, o neoliberalismo surgiu como um conjunto de políticas globais implementadas pelos governos de direita de Margaret Thatcher no Reino Unido e de Ronald Reagan nos EUA. Suas bases “teóricas” foram fornecidas por Milton Friedman e a Escola de Economia de Chicago.

Estamos vivendo um período sem precedentes de concentração e centralização de capital em uma escala global, com algumas centenas de corporações transnacionais controlando quase todos os aspectos da nossa economia. Capitalistas responderam à queda da taxa de lucro na produção aumentando a especulação no crédito, na propriedade e no mercado de ações – os setores improdutivos da economia. Nessas condições, a acumulação por expropriação se torna a ordem do dia: privatizando serviços públicos e vendendo ativos estatais; eliminando empregos e suprimindo salários; extraindo recursos naturais; forçando a abertura de territórios para a exploração. Tudo isso resulta em governos prestando mais contas a corporações, bancos e instituições financeiras do que aos cidadãos – uma desapropriação política que apenas compõe a desapropriação social e econômica. Esse fenômeno veio a ser conhecido como neoliberalismo.

Existe agora uma apreciação das bases materiais da solidariedade pelo mundo, baseada em um senso comum de descontentamento com a destruição que o neoliberalismo causa em tudo aquilo que valorizamos.

Neoliberalismo, em poucas palavras, é a tentativa do capital de resolver sua crise sujeitando todos os aspectos da vida, desde a saúde e a educação até a arte, a subsistência, e a própria democracia, à ideologia do livre mercado. Quando implementado em países de capitalismo avançado, o neoliberalismo é frequentemente referido como “medidas de austeridade”, enquanto que pelas populações do Terceiro Mundo é chamado de “ajuste estrutural” ou, mais recentemente, “Planos Estratégicos de Redução da Pobreza” (PERP).

Apesar das diferenças na nomenclatura, um conjunto comum de políticas econômicas e sociais destrutivas é implementado em países ao redor do mundo, privatizando e desregulando economias em benefício de poucas pessoas que possuem poder político e econômico. O Estado é declarado “ineficiente” e serviços públicos são primeiramente forçados a se deteriorar por falta de fundos antes de serem vendidos a baixo custo para o setor privado, principalmente para corporações transnacionais. O Estado é proibido de investir em infraestrutura social, incluindo saúde, educação, transporte e telecomunicações, que são em vez disso gerenciadas por corporações, para lucro. No Terceiro Mundo, o Estado é impedido de subsidiar a produção agrícola (diferentemente dos EUA e Europa). Barreiras tarifárias protegendo economias nacionais são removidas, direitos aos recursos naturais são leiloados a baixo custo e impostos são cortados, resultando no aumento da desigualdade social e no crescimento da dívida pública.

À medida que o Estado recua, serviços públicos que não dão lucro para as corporações, como a educação primária nas comunidades pobres, começam a ser fornecidos em parte pelas ONGs “beneficentes”, o outro lado do setor privado que em última instância não presta contas aos cidadãos. O resultado é que tudo aquilo que é essencial para a vida e a que todos têm direito — assistência médica, educação, água, etc. — é agora seletivamente oferecido como “caridade”.

Felizmente, existem alternativas. A destruição causada pelas políticas neoliberais resultou em uma crescente crise de credibilidade na habilidade do capitalismo de cumprir suas promessas e em movimentos que crescem e exigem uma nova abordagem, incluindo as revoluções na Tunísia e no Egito, os movimentos de ocupação, assim como os protestos por todo o continente africano e na Espanha e Grécia. Pela primeira vez em décadas, existe agora uma apreciação das bases materiais da solidariedade pelo mundo, baseada em um senso comum de descontentamento com a destruição que o neoliberalismo causa em tudo aquilo que valorizamos.

Exemplos do mundo real

Impoverished Indian Families Caught in Deadly Spiral of Microfinance Debt

Small loan schemes devastate the lives of millions of poor people and reveal the dark side of India's economic boom.

Saber mais

A Brief History of Neoliberalism
David Harvey, Oxford University Press, 2007
Structural Adjustment Explained
Martin Khor, Global Issues, 2005
Structural Adjustment: The Policy Roots of Economic Crisis, Poverty, and Inequality (The SAPRI Report)
The Structural Adjustment Participatory Review International Network (SAPRIN), Zed Books, 2004
Austerity: The History of a Dangerous Idea
Mark Blyth, Talks at Google, 2013