Em resumo
Um ataque violento por bandidos pró-regime contra manifestantes na Praça Tahrir foi o ponto de virada na revolução egípcia, gerando apoio popular para os manifestantes e levando à queda de Mubarak.
Em 2 de fevereiro de 2011, em uma tentativa desesperada de perturbar as massas de manifestantes que estavam ocupando a Praça Tahrir no centro do Cairo, milhares de baltajiah (bandidos) (veja: TEORIA: Baltajiah) atacaram manifestantes usando pedras, facas e coquetéis molotov. Muitos montavam camelos, mulas e cavalos e usavam espadas, bastões e chicotes para atacar os manifestantes. Novos combates irromperam no dia seguinte envolvendo munições de guerra e balas de borracha.
Relatórios preliminares de um comitê de pesquisa pós-revolução descobriram que os membros-chave do regime estavam por trás dos baltajiah que lideraram esse ataque, demonstrando mais uma vez o quão conveniente é para aqueles que estão no poder fazer com que bandidos civis façam o trabalho sujo por eles.
O povo respondeu ao apuro das pessoas.
Embora o objetivo do ataque fosse abortar a revolução, ocorreu exatamente o contrário: o ataque gerou uma grande onda de simpatia e apoio. O assassinato de quase uma dúzia de manifestantes e os outros 2 mil feridos geraram um protesto público que levou milhões de pessoas a sair às ruas e juntar-se ao protesto sentado na Praça Tahrir, forçando o ditador Hosni Mubarak, que estava há décadas no poder, a renunciar nove dias depois.
A Batalha do Camelo foi um ponto de virada na revolução egípcia. Mas poderia ter acabado de outra maneira. Que fatores fizeram com que ela fosse uma vitória para as pessoas? Um deles foi a resiliência e a bravura dos manifestantes. Os bandidos receberam 200 libras egípcias para realizar os ataques, mas a forte crença dos manifestantes em seu direito ao "pão, liberdade e justiça social" foi muito mais robusta do que qualquer incentivo monetário. Eles não só mantiveram o seu terreno, como também capitalizaram o ataque para expandir e escalar a revolução.
Durante os primeiros sete dias de ocupação da praça, não havia indícios de que o regime estivesse disposto a fazer concessões. As pessoas começaram a sentir que seus esforços não traziam nenhum fruto. Mas o ataque mostrou que o regime era histérico e tinha ficado sem opções. Apesar do sangue nas ruas, isso deu aos manifestantes um enorme incentivo moral, mostrando que estavam no caminho certo.
Os manifestantes começaram a convocar seus amigos e parentes, marchando pelas ruas, implorando aos seus irmãos e irmãs egípcios para virem ajudá-los. E eles o fizeram. A brutalidade do regime fez com que centenas de milhares de pessoas que estavam em cima do muro e observando a revolução de longe fossem às ruas e se juntássem ao protesto na Praça Tahrir.
Na madrugada de 2 de fevereiro, havia 30 mil bandidos e 25 mil manifestantes. À tarde, o número de manifestantes atingiu 300 mil, e à noite, havia um milhão de manifestantes nas ruas do Egito. O povo respondeu ao apuro das pessoas com uma onda de solidariedade (veja: TEORIA: Al faza’a [a surge of solidarity]).
Teoria chave
A Batalha do Camelo é um dos mais infames exemplos de baltajiah em ação. Um grupo marginalizado recebeu uma quantia insignificante de dinheiro para atacar os manifestantes. O regime tentou se distanciar dos bandidos, alegando que eles eram seguidores leais que estavam apoiando o governo de Mubarak. Quando ficou evidente que as mãos do regime estavam cheias de sangue, as pessoas se sentiram provocadas. Não havia espaço para a justificativa. Além disso, os bandidos não conseguiram sustentar o ataque quando eles próprios tiveram que pagar o preço.
Além disso, tornou-se caro demais para o regime e alguns dos seus apoiadores da elite financiar 25 mil bandidos. Então, eles desapareceram.
Tática chave
Ocupar a Praça Tahrir foi um movimento geográfica e politicamente estratégico. A praça está localizada no centro geográfico do Cairo e é um ponto focal de entrada e saída. Isso interrompeu o cotidiano, não só para lojas locais e vendedores, mas também para o turismo, uma das principais fontes de renda do Egito. Politicamente, ter milhões de pessoas unidas sob uma única demanda foi algo sem precedentes no Egito, e ver todas elas reunidas na praça mostrou sua força numérica. Portanto, a ocupação da praça excedeu o limiar de risco aceitável para o regime. Durante 18 dias, a Praça Tahrir tornou-se o lar de muitos manifestantes. Tendas foram erguidas, pontos controlados de entrada foram criados e concertos musicais revolucionários foram realizados. O que ajudou a tornar esta tática sustentável foi a generosidade das pessoas que viviam ao redor da praça, que abriram suas casas para manifestantes se lavarem, comerem e descansarem brevemente.
Princípio chave
Durante a primeira semana da revolução, não havia nenhuma indicação de que o regime estava disposto a atender as demandas do povo. Muitos de nós sentíamos que as noites sem dormir que estávamos passando na Praça Tahrir eram uma perda de tempo e deveriam acabar. Mas a Batalha do Camelo mudou nossos sentimentos, bem como os sentimentos de todo o país. A resposta do povo egípcio ao ataque pegou o regime de surpresa; ficou claro que eles estavam reagindo à situação ao invés de contê-la. A única interpretação foi que o regime havia ficado sem opções e estava efetivamente em estado de lutar ou fugir. Agora, nós sabíamos: quanto mais forte lutássemos, mais perto Mubarak ficava de fugir.
Metodologia chave
A Batalha do Camelo realmente mudou o espectro de aliados e levou muitos dos que estavam em cima do muro (tanto apoiadores passivos como pessoas neutras) a participar da revolução. E isso fez toda a diferença. Durante a primeira semana, dezenas de milhares de egípcios eram apenas observadores da revolução. Eles preferiam seguir suas vidas diárias sem interrupções ou estavam muito confortáveis atrás da tela, assistindo à história. No entanto, quando os manifestantes capitalizaram o incidente da Batalha do Camelo e falaram com os corações e as mentes das pessoas, expondo e destacando a brutalidade do regime, as pessoas que antes estavam passivas e neutras de repente sentiram que tinham algo maior a perder. Rapidamente, pessoas de diferentes classes, ideologias e origens tomaram as ruas e se juntaram à revolução.