Em resumo
O sucesso ou fracasso de uma campanha frequentemente depende de identificar corretamente nosso alvo — a pessoa ou entidade específica com o poder institucional para atender às nossas demandas — e depois ir atrás dele estrategicamente.
Desde o início dos anos 2000, a Coalizão Contra a Pobreza de Ontário (OCAP), uma organização radical antipobreza com sede em Toronto, Canadá, tem se mobilizado sob o slogan “Lute para Vencer”. É um slogan simples cheio de significado: para vencer, você tem que lutar. Mas o objetivo não é lutar; o objetivo é vencer.
Uma organização gerida por e para os pobres, a OCAP provou ser extremamente efetiva em convencer políticos, assistentes sociais e empregadores a concederem os ganhos concretos que ela reivindica. Em uma de muitas ações bem-sucedidas, a OCAP impediu que um posto de gasolina abastecesse até que o empregador pagasse o dinheiro devido a um ex-funcionário. Em outras iniciativas, delegações da OCAP foram a órgãos de assistência social para restabelecer benefícios a membros de baixa renda. A OCAP tem sido efetiva porque reconhece que a mudança social se dá por meio da luta, o que envolve a articulação de demandas claras e a aplicação de pressão direcionada sobre quem detém o poder para que as demandas sejam cumpridas.
Para vencer, você tem que lutar. Mas o objetivo não é lutar; o objetivo é vencer.
Nada é mais desmoralizante para pessoas que dedicaram muitas horas a uma ação divertida e criativa do que ouvir o alvo da ação dizer: “Eu não tenho o poder de fazer isso por você, mesmo se eu quisesse. O cara que você busca trabalha na porta ao lado.” (Ainda por cima, se for uma afirmação verdadeira, e não uma forma de se isentar.)
Quando planejamos ações e campanhas, temos que entender nossas metas e o que as motiva, tendo o cuidado de focar em quem tem poder para atender nossas demandas: assinar um cheque, introduzir uma legislação ou rescindir um contrato. Em um exemplo de Uganda, a análise das dinâmicas de poder político e cultural entre governo, militares, investidores e população permitiu que os moradores da Vila Apaa desenvolvessem uma estratégia vitoriosa para impedir planos do governo de uma grilagem maciça de terras.
É importante observar que nem todo alvo é vulnerável da mesma maneira. Um bloqueio, uma ocupação, ou uma intervenção criativa podem ser efetivos diante de um alvo, mas não contra outro. E o que funcionou uma vez pode não funcionar novamente. Precisamos descobrir onde nosso alvo é mais fraco e onde somos mais fortes. Que ações podemos realizar que estão fora da experiência do alvo? Nada abala mais um alvo do que algo com o qual ele não está preparado para lidar.
Você pode não ter poder suficiente para pressionar seu alvo principal no início, mas suas ações podem ajudar a identificar um alvo secundário – um indivíduo ou grupo que pode ser pressionado para alavancar sua influência em relação ao alvo principal. A Coalizão de Trabalhadores de Immokalee, por exemplo, venceu sua batalha identificando e pressionando um alvo secundário (empresas de fast-food) quando seu alvo principal (produtores de tomate) se mostrou resiliente (veja: HISTÓRIA: Boicote Taco Bell. O movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) aplica a mesma lógica contra empresas internacionais (alvos secundários) cúmplices do regime israelense de ocupação, colonialismo e apartheid (alvo principal). O BDS forçou muitas empresas a se retirarem de atividades comerciais que lucram com violações de direitos humanos (veja: HISTÓRIA: Campanha Fora Veolia.
Somos pessoas criativas. Se formos inteligentes sobre onde e como pressionamos, não há nada que não possamos realizar.
Originalmente publicado em Beautiful Trouble.
Exemplos do mundo real

Despite various economic and political issues, the Tunisian revolution focused on a single target: the removal of dictator Zine al-Abidine Ben Ali.