Em resumo
Após a revolução, a juventude tunisiana somou sua perspicácia à paixão para demandar "nenhuma reconciliação sem prestação de contas!" e impedir a elite financeira corrupta de escapar da justiça.
Os regimes do Oriente Médio e da África ficaram mais astutos em resposta aos movimentos de poder popular ao longo da última década. Do Egito ao Zimbábue, muitas revoluções inicialmente bem sucedidas acabaram cooptadas pelas estruturas de poder pré-existentes por meio de uma reorganização premeditada do governo para sustentar o status quo. Ainda que a revolução na Tunísia não tenha sido cooptada (felizmente!), a poderosa elite do regime pré-revolução do ex-presidente Ben Ali ainda procurou fazer negociações que servissem aos seus interesses.
Em 2015, o presidente Essebsi propôs a "Lei de Reconciliação Econômica", a qual permitiria que empresários e funcionários públicos corruptos saíssem completamente impunes de acusações de corrupção, além de também saírem livres de pagar as dívidas e impostos devidos ao tesouro nacional. A lei foi recebida com ampla resistência sob a bandeira de "nenhuma reconciliação sem prestação de contas", criando um movimento liderado pela juventude conhecido como Manich Msamah ("não vou perdoar" na língua árabe).
A batalha em torno da lei ocorreu como em uma luta de boxe de três rounds: as forças capitalistas se chocaram em combate com as forças progressistas e da classe trabalhadora, enquanto o parlamento atuava como árbitro. Os empresários, explorando a deterioração econômica que se seguiu à revolução tunisiana de 2011, tecnicamente ameaçaram retirar seus investimentos caso a lei não passasse. Enquanto isso, com as mesmas terríveis condições econômicas que acenderam o pavio da revolução – desemprego, pobreza e inflação – piorando a cada dia, a maioria das pessoas estava contra a lei, uma vez que os capitalistas eram a favor.
A visibilidade das camisetas e a unidade que o logo da campanha inspirou fez com que as pessoas se sentissem parte da campanha da mesma forma que se sentem parte de um time de futebol.
A despeito da enorme rejeição da população à lei, a oposição tradicional adotou uma abordagem convencional (e ineficaz) de publicar comunicados de imprensa e apresentar seminários. Frustrados com essa atitude, um grupo de jovens da oposição teve uma ideia. Ao invés de panfletar, eles distribuíram camisetas e disponibilizaram imediatamente a arte para que outras pessoas pudessem usá-la. Rapidamente as pessoas começaram a andar por aí usando o logo da campanha — um martelo judicial —, o qual se tornou o símbolo da luta por justiça pós-revolucionária e prestação de contas .
No lugar de fazerem discursos políticos longos e sofisticados, eles reescreveram músicas populares e usaram caricaturas cômicas e frases satíricas para disseminar sua mensagem . A juventude que começou o movimento Manich Msamah não estava satisfeita em apenas ganhar a batalha na internet: ela também foi às ruas, andando por bairros e vielas enquanto recrutava pessoas.
No começo, os políticos que apoiavam a lei classificaram o movimento como "um bando de crianças brincando nas ruas" , mas logo a táticas do movimento ganhou força. A visibilidade das camisetas e a unidade que o logo da campanha inspirou , fez com que as pessoas se sentissem parte da campanha da mesma forma que se sentem parte de um time de futebol, e à medida que as músicas satíricas viralizaram, a narrativa da campanha ganhou amplo alcance .
O TGLU — Sindicato Geral do Trabalho da Tunísia — e vários outros grandes sindicatos nacionais somaram forças à mobilização massiva, enquanto outros sindicatos, como o SNJT — Sindicato Nacional de Jornalistas da Tunísia —, ofereceram proteção e apoio logístico. Dezenas de organizações da sociedade civil de todos os espectros políticos se tornaram parte do movimento. Foi a primeira vez, desde a revolução, que a sociedade civil se uniu e trabalhou coletivamente sob uma bandeira.
Em 2015, cerca de 300 manifestantes que participavam de uma ação de rua contra o primeiro texto da lei foram reprimidos pela polícia, algo que gerou uma onda de raiva e trouxe maior apoio para o movimento . O projeto de lei foi adiado, modificado e apresentado novamente para votação em 2016, quando foi recebido com uma mobilização ainda maior da sociedade civil. Acabou adiado novamente, reescrito e apresentado pela terceira vez para aprovação em 2017, quando finalmente passou como a "Lei de Reconciliação Administrativa".
Ainda que o movimento tenha não conseguido derrotar completamente a lei, ele foi bem sucedido em reduzir de forma significativa o escopo da anistia proposta pelo texto original. Talvez o mais importante seja que o movimento foi bem sucedido em convencionar novas abordagens de mobilização que colocaram a criatividade e a descontração na vanguarda. Além disso, o movimento unificou diferentes espectros políticos da sociedade civil sob uma só bandeira, intermediou a troca de conhecimento entre ativistas e enriqueceu o conhecimento em planejamento estratégico e construção e alianças. Os camaradas capitalistas vão pensar duas vezes antes de tentar enganar os tunisianos novamente.
Teoria chave
Focar apenas os argumentos políticos contra a lei teria alienado uma massa essencial de aliados que estava mais preocupada com as ramificações econômicas (e seria mais impactada por elas). Era essencial que as pessoas da campanha saíssem do seu próprio grupo identitário que enfatizava as demandas políticas, reconhecendo, assim, que a maioria da população estava enxergando a questão pelas lentes das necessidades imediatas e das lutas cotidianas.
Tática chave
Quantas vezes já te entregaram um panfleto só para você jogá-lo na primeira lata de lixo? Já as camisetas distribuídas pelo movimento não eram apenas um brinde legal que deixava as pessoas animadas, mas também uma pequena e prática mercadoria que elas podiam usar em qualquer lugar. As camisetas se tornaram um anúncio móvel que despertou o interesse das pessoas para pegar a própria e se juntar ao clube.
Princípio chave
A campanha focou em questões como o preço da eletricidade e dos itens de consumo, os baixos salários e os altos índices de desemprego. Com isso, conseguiu se comunicar com os problemas diários de uma camada muito maior da sociedade (mobilizando desde os pais até estudantes e idosos) do que os progressistas “do bem” que costumeiramente aparecem em protestos.