Em resumo
Em abril de 2014, 276 meninas foram sequestradas de sua escola pelo grupo terrorista Boko Haram, o que gerou uma imensa campanha global exigindo que elas fossem devolvidas.
Em 14 de abril de 2014, um ataque do grupo terrorista Boko Haram contra uma escola pública secundária em Chibok, na Nigéria, deixou a escola completamente destruída. No ataque, 276 alunas que estavam se preparando para uma prova foram enfileiradas sob a mira de armas e forçadas a entrarem em caminhões. Nos dias que se seguiram, 57 meninas saltaram para fora ou escaparam.
A resposta do governo foi letárgica: inicialmente, os militares negaram que o sequestro tivesse sequer acontecido, voltaram atrás em uma alegação de que havia sido feito resgate, e uma reunião com atores chave convocada pela primeira dama na residência presidencial acabou emotiva e um tanto quanto cômica.
A campanha foi bem sucedida em transformar um problema antigo e negligenciado em uma questão que exigia ação e atenção imediatas.
A campanha “Tragam nossas meninas de volta” procurou alcançar um duplo objetivo: permanecer em solidariedade com os pais e comunidades afetadas, e responsabilizar o governo pelo fracasso em proteger seus cidadãos considerando sua resposta inadequada à insurgência que assola o país desde 2009. O sequestro foi um pico trágico na onda de terror promovida pelo Boko Haram em propriedades públicas, principalmente escolas.
A campanha se organizou nas redes e fora delas. A organização nas redes foi estruturada pela hashtag #Tragamnossasmeninasdevolta, que viralizou tanto na Nigéria quanto internacionalmente .
A campanha nas redes começou quando as atividades offline atingiam seu ápice. A primeira ação foi uma marcha em direção à Assembleia Nacional na capital nigeriana Abuja, organizada e liderada por centenas de mulheres. As táticas de rua ganharam impulso, desde pequenas reuniões de comunidades até protestos locais, e todas essas ações deram ainda mais destaque à hashtag. Isso conectou os esforços do ativismo das redes às táticas de ativismo nas ruas. Para criar um ritmo mais organizado, pactuava-se reuniões regulares ao ar livre ou então "ocupações" realizadas diariamente em Abuja e semanalmente em Lagos. Cinco anos depois, essas ocupações continuam, embora com menos pessoas participando. Apesar disso, a campanha foi bem sucedida em transformar um problema antigo e negligenciado em uma questão que exigia ação e atenção imediatas, explorando a raiva coletiva naquele momento histórico .
A campanha anunciou um chamado para a ação que empoderou as pessoas para participarem em seus próprios e de acordo com suas capacidades . As ações sugeridas incluíam pressionar os governadores e membros do parlamento, bem como ações simbólicas de solidariedade. O chamado até mesmo classificava as ações por local, tanto no país como fora dele. Quando a indignação se tornou mundial, pessoas muito famosas como Michelle Obama, Alicia Keys e Angelina Jolie adotaram a hashtag, e parlamentares do mundo todo emprestaram suas vozes às demandas do movimento.
Desde o momento do sequestro até abril de 2019, outras 107 meninas foram devolvidas às suas famílias por meio da articulação entre as negociações estatais e a força militar empreendida por uma nova presidência que entrou no poder em 2015.
Teoria chave
O movimento não podia se dar ao luxo de ser arrastado para o bueiro das políticas nigerianas, principalmente com um governo em exercício desesperado para se manter no poder por meio das eleições que estavam para acontecer. Ao focar em uma demanda única e essencial para "trazer de volta as meninas de Chibok", a campanha foi bem-sucedida em superar as disputas tanto da narrativa, quanto de como os sequestros seriam enquadrados.
Tática chave
O uso do Twitter e do Facebook teve um enorme papel na campanha. Sob uma hashtag unificada, essas plataformas foram usadas para estabelecer um diálogo público pelo qual mensagens específicas foram divulgadas e comunicados de imprensa circularam amplamente. Por causa da sua natureza virtual, a hashtag atravessou fronteiras e pessoas do mundo todo prestaram atenção ao sequestro. Os elementos-chave que fortaleceram o uso dessa hashtag foram sua construção coletiva, sua formulação imediatamente após o sequestro e sua estruturação alinhada com as exigências da campanha.