Princípio

Desenvolva uma estratégia que articule dentro e fora

O ex-presidente estadunidense Barack Obama conversa com o redator de discursos Cody Keenan, que se vestiu de pirata para uma foto no Salão Oval utilizada no discurso humorístico do presidente no jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca em 9 de maio de 2009. (Domínio público)

Em resumo

Algumas pessoas trabalham apenas através do sistema. Outras o desafiam apenas do lado de fora. Mas as estratégias mais poderosas conectarão as duas, combinando a pressão dos movimentos sociais com os esforços para ganhar e exercer o poder estatal.

Assim como exércitos usam soldados e veículos blindados, os progressistas também devem aproveitar todas as habilidades de suas diversas forças. Se um movimento pode mobilizar ativistas, agitadores, políticos e manifestantes, uma estratégia potente e unificada, de dentro para fora, está ao seu alcance.

Quem está dentro abre caminho vagarosamente por meio de canais oficiais, buscando capturar ou pelo menos alavancar o poder do Estado. Essas pessoas veem o compromisso como o preço de entrada e a subversão como ameaça aos seus esforços meticulosos.

Quem está fora rejeita o compromisso e a paciência, mantendo-se fiel às demandas radicais que alimentam os movimentos sociais. Para quem está do lado de fora, os esforços dos que estão dentro parecem alheios às necessidades imediatas das pessoas e lentos demais para criar mudanças significativas agora.

Ativistas sábios não abandonam completamente a política institucional; eles tampouco se isolam de outros movimentos sociais.

Às vezes, uma das estratégias falha. “Eu avisei”, diz quem está do lado de fora, com alegria triunfante, sempre que uma pessoa de dentro é exposta como traidora. “Lá vamos nós de novo”, reclama quem está dentro, revirando os olhos, sempre que os de fora desperdiçam a energia e o entusiasmo das pessoas sem obter nenhuma mudança tangível.

A decepção de qualquer um dos lados pode levar a uma oscilação exagerada do pêndulo para o método oposto. Uma percepção generalizada de que a mudança institucional havia falhado culminou na rebelião estudantil de 1968 na Alemanha Ocidental, quando o Movimento Sponti rejeitou a política institucional, preferindo a “espontaneidade revolucionária das massas”. Quando esse levante, por sua vez, falhou em gerar a mudança prometida, Rudi Dutschke argumentou que tal transformação só poderia ser provocada por uma “longa marcha por cima das instituições”. No final, um dos Sponti, Joschka Fischer, tornou-se ministro do governo alemão. Da estratégia interna para a externa e de volta à interna, o pêndulo deu uma volta completa.

Ativistas sábios não abandonam completamente a política institucional; eles tampouco se isolam de outros movimentos sociais. Entender a importância de cada componente de uma estratégia unificada evitará decepções e possibilitará a construção de campanhas que façam uso de ambas, aumentando a probabilidade de ganhos reais.

Protestos e agitações não são apenas uma válvula de pressão. Essas iniciativas devem, nas palavras de Martin Luther King, “criar uma situação tão cheia de crise que inevitavelmente abrirá a porta para a negociação” (veja: PRINCÍPIO: Empodere as pessoas, depois negocie).

Por outro lado, a negociação não é o fim da mobilização, como mostrou o estilo negociador de Lech Walesa durante a greve de 1981 no estaleiro de Gdansk, na Polônia. Enquanto negociava com o governo, ele manteve a comunicação com os membros do sindicato Solidariedade e se dirigiu a eles de modo constante. “O Solidariedade não pode dar carta branca ao governo enquanto não souber quais são as intenções do governo”, garantiu o líder aos grevistas.

Mas raramente alguém atua como negociador e mobilizador. Pessoas de dentro e de fora geralmente trabalham separadas. Elas podem prevenir a discórdia e trabalhar em uníssono com a ajuda de três ingredientes especiais: coordenação, comunicação e confiança. A coordenação implica que os componentes internos e externos da estratégia geral estejam em sincronia. Comunicação significa que a todo momento os negociadores sabem o que está acontecendo na rua, e os articuladores sabem o que está acontecendo na sala de reuniões. A confiança entre pessoas de dentro e de fora é a liga que manterá os dois componentes da estratégia juntos nos momentos em que a coordenação perder sincronia e a comunicação falhar.

Com esses três ingredientes e uma compreensão sensível do poder, os movimentos podem criar mudanças por meio de uma estratégia de dentro para fora.

Exemplos do mundo real

Pakistan’s Laywers’ Movement (2007-2009)

The ability of the Pakistani lawyers to strategically organize was central to the movement’s success.

The Cochabamba Water Wars

An interview with Oscar Olivera

Saber mais

Introduction to the Inside/Outside Strategy
Richard Moser, Be Freedom, 2018
The Inside/Outside Strategy Revisited
Richard Moser, CounterPunch, 2020