História

Graduação das Ruas

Diplomados da turma de 2018 da Universidade da África em Mutare, Zimbábue.

Em resumo

Pessoas com ensino superior no Zimbábue transformaram, de forma criativa, seu desemprego em uma rotina diária de protestos, incutindo na consciência popular uma nítida relação entre desemprego, crise econômica e corrupção.

Embora o Zimbábue tenha a maior taxa de alfabetização da África, os vários anos de má gestão econômica e sanções levaram o país a uma crise econômica inevitável. Em 2013, o governo prometeu criar dois milhões de empregos, porém a crise só parece ter piorado ao longo do tempo. Em 2016, isso fez com que um grupo de jovens sem perspectivas de emprego ou vida digna protestasse contra o desemprego no Zimbábue, que está entre os mais altos da África.

No pico da crise, a maioria das pessoas com diplomas de graduação, pós graduação e até mesmo doutorado se viu desempregada ou em subempregos. Para conseguir arcar com o básico, essas pessoas estavam quase sempre trabalhando fora das suas áreas de atuação – em trabalhos como o de feirante, vendedor de jornal ou vendedor de créditos de celular.

Para tornar suas ações memoráveis, eles apresentaram suas lutas pessoais enquanto questão política.

As pessoas com ensino superior tradicionalmente utilizavam a colação de grau para protestar na tentativa de expressar suas frustrações. Algumas já levaram cartazes escondidos e exibiram-nos durante a cerimônia, causando disrupção. Contudo, esses protestos se mostraram improvisados e distantes entre si, sendo, por isso, bastante ineficazes enquanto tática única.

Em 2016, um grupo de jovens se mobilizou sob a bandeira desempregados com diploma. Ao aprender com as tentativas anteriores, eles perceberam que precisariam focar em ações que impactassem a memória das pessoas e que se sustentassem durante um grande período de tempo para, de fato influenciar diretamente a opinião pública. Para tornar suas ações memoráveis, eles apresentaram suas lutas pessoais enquanto questão política.

O grupo começou a vender vegetais nas ruas usando suas becas. Logo, muitas outras pessoas desempregadas com diploma se juntaram, não só porque a tática era fácil de organizar de forma independente, mas também porque elas se sentiram mais seguras fazendo isso coletivamente. As pessoas com diploma que trabalhavam como motoristas de transportes públicos (kombi no jargão zimbabuense; matatu ou daladala em suaíli) começaram seu dia de trabalho vestindo a roupa formal .

Com grande participação e criatividade, as ações começaram a atrair bastante atenção. O grupo, então, aproveitou essa oportunidade para se tornar mais público. Eles organizaram partidas de futebol nas ruas em diferentes bairros por toda Harare usando também roupas formais. No Zimbábue, e de forma mais geral no Sul Global, as crianças quase sempre jogam futebol nas ruas durante as férias, o que indica que estão "de folga" ou sem nada para fazer. Ao fazer isso, as pessoas desempregadas com diploma estavam transmitindo uma mensagem parecida .

A simplicidade, criatividade e consistência dessa mensagem foi eficaz em influenciar a opinião pública como pretendido, o que colocou o Estado na defensiva. Ironicamente, o regime respondeu a esse protesto bem-humorado prendendo as pessoas desempregadas com diploma e indiciando-as pela infração de "importunação pública". Contudo, a justiça as considerou inocentes e mandou soltá-las.

Tática chave

Sátira

Ao fazer suas atividades diárias vestindo becas, as pessoas desempregadas com diploma expuseram os altos níveis de desemprego de um jeito desafiador, porém sutilmente cômico. O uso do humor ajudou a espalhar a mensagem a outras pessoas desempregadas e com diploma, aos cidadãos e cidadãs de forma mais ampla e, depois, à mídia. Isso aumentou a pressão para uma resposta do governo.

Princípio chave

Exponha a desigualdade com um gesto que viraliza

Usar a beca foi algo simples, de baixo risco e criativo, tornando mais fácil que as pessoas se juntassem às ações planejadas ou mobilizassem ações de forma independente em qualquer lugar do país. Esses elementos foram essenciais para fazer com que a tática ganhasse escala.