Em resumo
Existe algo melhor do que executar uma campanha e vencer? Não executar uma campanha e ainda assim vencer! Você pode chegar lá se fizer uma ameaça (plausível) à qual seu oponente cede sem lutar (ou mesmo sem acusar o seu blefe).
Se você conseguir fazer os outros jogadores da mesa acreditarem que você tem cartas melhores do que eles, eles vão fugir do jogo por medo de perder.
— Saul Alinsky
Uma das máximas mais conhecidas do mobilizador do século XX Saul Alinsky é a ameaça costuma ser mais aterrorizante do que o fato em si. Intimidar um oponente com uma ação iminente contra ele muitas vezes faz com que ele aceite suas demandas.
Em 1964, quando o Aeroporto O'Hare de Chicago estava sugando a força vital de negros e outros grupos oprimidos de Chicago, Alinsky e a Woodlawn Organization ameaçaram um “shit-in". Milhares de ativistas pagariam um centavo para acessar todas os vasos sanitários do aeroporto, e formariam filas atrás de seus usuários para entupir os banheiros e forçar os passageiros a transformar o aeroporto em um imenso banheiro. A equipe da Woodlawn nunca teve que iniciar a ação. Assim que as notícias vazaram, a prefeitura chamou os organizadores para uma reunião e se rendeu às suas demandas a respeito do aeroporto de O'Hare.
Intimidar um oponente com uma ação iminente contra ele muitas vezes faz com que ele aceite suas demandas.
Nós aprendemos esse princípio desde a mais tenra idade. Um pai ergue a mão para dar um tapa nos dedos de seu bebê quando ela quer tocar o fogo. O gesto paterno é motivo suficiente para ela recuar. Ameaçar fazer algo pode ser um ato mais poderoso do que realmente fazê-lo.
Em Busia, Uganda, os usuários do Hospital Masafu, que deveria oferecer serviços de saúde gratuitos para todos os residentes locais, passaram quase uma década sem uma máquina de raio-X que funcionasse. A anterior quebrou e a administração do hospital não se preocupou em repará-la ou adquirir uma nova. Boatos de que os administradores queriam desviar fundos em vez de gastá-los com seus contribuintes se espalharam por Busia. Em agosto de 2017, uma delegação de cidadãos organizada por Frank Kasumba e outros ativistas enviou uma carta ao oficial de contabilidade do distrito, dando um ultimato de um mês para adquirir uma nova máquina de raio-X. Se falhassem, os residentes invadiriam seu escritório e o ocupariam indefinidamente. Passada uma semana, a parlamentar Nabulindo Jane Kwoba doou cerca de 5 mil dólares e o distrito aprovou um orçamento suplementar de três mil dólares para reparar a máquina.
Em 2015, em resposta à cumplicidade do setor privado para com os crimes israelenses, a ala egípcia do movimento BDS anunciou um boicote à Mobinil, a então franquia nacional da gigante das telecomunicações Orange, que tinha 30 milhões de usuários egípcios. Antes do boicote, o CEO da Orange, Stephane Richard, voou de Paris ao Cairo para prometer que a companhia se retiraria de Israel.
Organizações como a Rainforest Action Network (RAN) usaram estratégias semelhantes. Um exemplo é a campanha da RAN por volta do do ano 2000 para fazer com que as empresas norte-americanas de produtos florestais NÃO obtenham madeira proveniente de florestas nativas. Em vez de ir atrás de cada pequena empresa, eles miraram no maior ator do mercado (Home Depot) e, depois de vencerem essa luta, eles puderam focar nas outras grandes empresas e (com muita credibilidade) ameaçar fazer o mesmo com elas. Todas cederam rapidamente sem lutar.
Exercitar o princípio de Alinsky não é para as pessoas de coração fraco. Indivíduos e grupos que fazem ameaças geralmente devem estar dispostos a executá-las e serem capazes disso, caso a necessidade emerja. Por outro lado, Jack London escreveu: "A vida nem sempre é uma questão de manter boas cartas, mas às vezes de jogar bem com uma mão ruim".
Exemplos do mundo real

The Woodlawn Organization and Alinsky threatened to occupy Chicago O’Hare bathrooms all day in protest of the airport’s abuse to local communities.