História

Birthright Unplugged/Replugged

Um grupo do Birthright Unplugged observa o Muro do Apartheid, na Jerusalém ocupada, no altura que divide o bairro palestino de Abu Dis, em 2005 (à esquerda). Um menino do campo de refugiados de Dheisheh faz uma pausa na visita à sua aldeia ancestral de Ajjur, em 2006 (à direita). Fotos: D. ‘Alwan.

Em resumo

O projeto Birthright Unplugged/Replugged usou a viagem como um ato subversivo para expor as injustas restrições de locomoção e violações do direito internacional cometidas por Israel.

Quando comunidades oprimidas, silenciadas e marginalizadas nos contam sua história, elas estão pedindo algo em troca, pedindo-nos para tomar uma posição assim como elas tomaram. Para falar como elas falaram. Para assumir riscos, como elas assumiram. Ouvir verdadeiramente é saber que devemos realmente agir.

— June Jordan

Israel nega aos palestinos o direito histórico e internacionalmente reconhecido de retorno para os refugiados. Além disso, o governo israelense criou e aplica uma "lei de retorno" que estende os benefícios de cidadania a qualquer pessoa de herança judaica. Isto é um convite de facto para que qualquer um de ascendência judaica visite e/ou se mude para Israel, ao mesmo tempo em que exclui os milhões de palestinos do acesso às suas terras ancestrais, relegando muitos para campos de refugiados ou a diáspora. Em resposta, os projetos gêmeos Birthright Unplugged (Direito de Nascimento Desconectado) e Birthright Replugged (Direito de Nascimento Resconectado) usaram a viagem como um ato subversivo para expor as injustas restrições de locomoção e violações do direito internacional cometidas por Israel.

Birthright Unplugged foi projetado para expor as violações israelenses do direito internacional ao mesmo tempo em que proporcionava a participantes internacionais experiências edificantes de viajar até a Palestina histórica, expondo-os à miríade de circunstâncias opressivas que os palestinos aguentam diariamente. A experiência encorajava os participantes a se engajar na mudança das políticas em relação aos palestinos e no avanço da libertação coletiva.

O programa Birthright Unplugged oferecia viagens para cidades palestinas, aldeias e campos de refugiados na Cisjordânia e a oportunidade de passar tempo com os palestinos internamente deslocados que vivem dentro de Israel, bem como alguns israelenses judeus que estavam trabalhando em abordagens não-militarizadas e não-assistencialista para a crise, como recusar-se a servir o exército, participar de marchas não-violentas lideradas por palestinos e outras ações. O programa foi projetado principalmente para aqueles que vivem no Ocidente, embora pessoas de todas as origens fossem bem-vindas. Priorizávamos pessoas que trabalham com um viés anti-racista e que estão bem posicionadas dentro de suas comunidades para poder contribuir com o trabalho de justiça social após seu retorno.

Quando o Birthright Unplugged foi notificado com uma ordem judicial de cessar e proibir pelo Birthright Israel, ao invés de correrem para se proteger, os organizadores viram isso como uma oportunidade para envolver a mídia e promover o projeto.

Ao longo da jornada, os participantes desenvolveram uma compreensão da vida diária sob a ocupação e o apartheid e aprenderam sobre a história da região através do contato com pessoas sub-representadas no discurso ocidental e profundamente afetadas pelas opressivas políticas israelenses.

O programa irmão do Birthright Unplugged, Birthright Replugged, trabalhou com crianças palestinas vivendo em campos de refugiados na Cisjordânia para decretar seu "direito de retorno" — a lei internacional que dá a todos os refugiados e seus descendentes o direito de retornar às suas terras. Israel vem negando consistentemente esse direito aos palestinos desde 1948 e também proíbe a maioria dos refugiados palestinos até mesmo de visitar suas terras. O simples ato de trazer as crianças para lugares perto de onde vivem e nos quais têm direito de viver ou passar seu tempo, mas que não podem acessar – como Jerusalém, o mar e as aldeias de onde seus avós foram expulsos – é fundamental para a missão do Birthright Replugged. Essas jornadas são cada vez mais difíceis à medida que as políticas israelenses de apartheid restringem ainda mais a locomoção para os palestinos.

Durante três dias, as crianças ficavam com famílias de cidadãos palestinos de Israel; elas visitavam lugares sagrados, Jerusalém, o mar e suas terras ancestrais. Elas documentavam suas experiências com câmeras e criavam exposições para contribuir com a memória coletiva no campo de refugiados e para compartilhar suas histórias com pessoas no exterior.

Essa experiência foi, e continua a ser no momento desta edição, quase impossível para a maioria dos palestinos na Cisjordânia e Gaza, que, aos 16 anos, recebem cartões de identidade que Israel usa para controlar seus movimentos. Enquanto cidadãos estrangeiros, os coordenadores do programa têm conseguido se movimentar com relativa liberdade, e assim, ao contrário dos pais e avós das crianças, conseguem levá-las a essa viagem. Embora não seja tecnicamente ilegal, atravessar pontos de controle com ônibus cheios de jovens palestinos é um desafio, já que os soldados israelenses têm pouca boa vontade para com os jovens viajantes e uma enorme liberdade para patrulhar os pontos de controle e decidir quem eles deixam passar.

Em janeiro e fevereiro de 2008, Birthright Replugged também organizou oficinas para crianças palestinas em campos de refugiados na Jordânia, no Líbano e na Síria. Os palestinos no exílio, ao contrário dos que vivem em campos de refugiados na Cisjordânia, não são capazes de atravessar as fronteiras controladas por Israel para fazer a jornada que fazemos com as crianças. Por esta razão, as oficinas dependeram fortemente das histórias contadas oralmente pelas famílias das crianças. Conduzíamos viagens virtuais através de mapas de fontes como a Palestine Land Society.

Todas as fotografias, reflexões e escritos das crianças sobre suas experiências e suas histórias familiares foram incorporados a exposições que foram dadas de presente às comunidades dos campos e transformadas em exposições itinerantes para uso nos Estados Unidos.

Pouco depois de lançado, o projeto Birthright Unplugged/Replugged foi notificado em 2005 com uma ordem judicial para cessar e proibir por violação de direitos autorais pelo Birthright Israel, uma organização sionista que oferece viagens gratuitas a Israel/’48 para pessoas judias de todo o mundo com idades entre 18-26 anos, como forma de incentivar jovens judeus a apoiar o estado de Israel e suas políticas. A ordem judicial ocorreu no momento em que lançamos nosso site e solicitamos candidatos para as viagens, mas ainda não tínhamos feito nossa primeira viagem. A ameaça de um processo vindo desta renomada instituição sionista reuniu a atenção imediata da imprensa e nos ajudou a lançar o projeto com uma crítica à propaganda israelense e às viagens de patriamento.

Depois disso, nós conduzimos centenas de participantes através das delegações Birthright Unplugged e Replugged e recebemos grande atenção da mídia em árabe, inglês, alemão e hebraico. De modo geral, essas viagens aumentaram a conscientização, impactaram a vida e o trabalho dos participantes, ganharam cobertura da mídia e ajudaram a colocar as violações dos direitos humanos pelos israelenses no mapa global. No entanto, a crise dos direitos humanos na Palestina e as restrições de viagem para os palestinos continuam.

Teoria chave

Anti-opressão

No seu núcleo, as análises anti-opressão e anti-racista e a interseccionalidade procuram subverter liberdades e privilégios para expor e enfrentar as desigualdades de poder. Birthright Unplugged adere a esses sistemas, usando viagens para expor e desafiar estruturas de poder.

Tática chave

Subversão cultural

Optamos por minar o nome do Birthright Israel ao reorientá-lo para nossos próprios propósitos. Isso nos permitiu contestar o poder e os pressupostos ocultos por trás da noção sionista de direito de nascimento, angariar reconhecimento imediato e fazer uma crítica amplamente divulgada ao Birthright Israel.

Princípio chave

Lidere com personagens que geram empatia

Quem é mais simpático do que crianças? Particularmente, crianças vivendo em campos de refugiados que viajam para as cidades onde cresceram os seus avós, cujas casas foram confiscadas e demolidas por exércitos de construção de Estados, que procuram orar em seus locais sagrados e visitar o mar a apenas poucos quilômetros de distância? Essas jornadas desenham um retrato doloroso e real do que está acontecendo, e que é difícil de se ignorar.