Metodologia

Ferramenta da cebola

A ferramenta da cebola pode descascar camadas para expor desejos e necessidades no âmago. Photo: theilr | CC BY-SA 2.0

Em resumo

As pessoas no poder não são tão simples quanto nós imaginamos: O que elas dizem que querem raramente é o que realmente querem, e muito menos o que elas não podem viver sem. A ferramenta da cebola expõe a retórica para dar um quadro mais profundo.

"Nós somos o que nós fingimos ser, então nós devemos ser cuidadosos sobre o que fingimos ser."

—Kurt Vonnegut Jr.

“Que meus silêncios se tornem mais precisos.”

— Theodore Roethke

Origens

A ferramenta da cebola foi desenvolvida pela primeira vez por Ian Mitroff e Thierry Pauchant na década de 1990 como um meio de gerenciar crises e conflitos, mas seu uso se expandiu para muitas áreas diferentes.

As pessoas - incluindo políticos e outras pessoas com poder - não são tão unidimensionais como nós pensamos. O que elas dizem não é sempre o que elas realmente querem ou precisam. Em vez disso, elas têm camadas complexas de necessidades, interesses e posições; algumas podem ser visíveis e outras invisíveis. A ferramenta da cebola nos ajuda a descascar suas retóricas políticas para construir uma compreensão mais profunda e mais complexa do que motiva determinados indivíduos que estão no poder, para que possamos trabalhar melhor com (ou contra) eles.

A ferramenta da cebola faz uma distinção crítica entre as posições, interesses e necessidades de uma pessoa poderosa.

Uma posição é o que nós dizemos que queremos. Mas falar pode ser fácil, especialmente para políticos poderosos e da elite empresarial. Se assumirmos que eles estão nos dizendo toda a verdade, nunca entenderemos o quadro mais amplo. Isso não significa que precisamos ser geralmente desconfiados, e sim apenas que é aconselhável pensar claramente, racionalmente e criticamente ao ouvir o que os poderosos dizem.

Se nós vamos ser estratégicos sobre a mudança da sociedade para melhor, precisamos avaliar e analisar as posições, interesses e necessidades daqueles com poder.

Um interesse, por outro lado, é o que nós realmente queremos. Nossos interesses nem sempre ficam evidentes pela nossa posição declarada. Por exemplo, o interesse de um político pode ser consolidar seu poder e aumentar sua riqueza. O interesse da Coca-Cola e da Shell é mais provavelmente acumular ganho financeiro à custa de outros. Enquanto isso eles estão falando sobre o bem da nação e prometendo felicidade para qualquer um que beba Coca-Cola. Há uma clara diferença entre o que eles dizem que nós queremos e o que eles realmente querem.

No centro de tudo isso estão nossas necessidades. Elas sãoo que precisamos ter e são frequentemente não-negociáveis. Para um indivíduo elas podem ser nossos valores, compromissos, crenças ou ética. É a camada mais íntima e, geralmente, onde somos mais honestos. Está, obviamente, bem no fundo e muitas vezes escondida, então compreender o funcionamento interno de outras pessoas nem sempre é fácil.

Aqui está um exemplo da ferramenta da cebola sendo usada para olhar a posição, o interesse e as necessidades tanto de um parlamentar da oposição quanto de um parlamentar da situação.

Então, o que tudo isso tem a ver com ativismo e campanhas? Bem, se nós vamos ser estratégicos para mudar a sociedade para melhor, precisamos avaliar e analisar as posições, interesses e necessidades daqueles com poder. Através da compreensão de indivíduos poderosos em um nível mais profundo, nós podemos escolher nossos alvos com sabedoria, nos comunicar com eles mais estrategicamente (e quando for preciso, diplomaticamente) e melhor identificar conflitos de interesses e alianças em potencial.

Além disso, enquanto as posições são geralmente públicas, verdadeiros interesses não o são. Às vezes, expor o verdadeiro interesse de seu oponente pode minar sua credibilidade e mover sua causa para mais perto da vitória.

A habilidade de distinguir entre o que as pessoas dizem que querem, o que realmente querem e o que não podem viver sem possui muitas aplicações práticas. Por exemplo, a ferramenta de cebola é excelente para o gerenciamento de conflitos dentro de equipes de ativistas quando surgem discordâncias. Ela pode ajudá-lo a identificar o que realmente importa para você e seus colegas e ajudá-lo a determinar prioridades compartilhadas.

Como usar

  1. Desenhe três círculos concêntricos.

  2. No círculo mais externo escreva "Posições", no círculo do meio escreva "Interesses" e no círculo mais interno escreva "Necessidades".

  3. Selecione o indivíduo no qual a ferramenta da cebola irá se basear. Este provavelmente será o nome de um indivíduo interessado que é relevante para o seu trabalho.

  4. Identifique suas posições. O que ele está dizendo publicamente? O que ele diz que quer?

  5. Identifique seus interesses. Você pode deduzir seus interesses reais? O que ele realmente quer?

  6. Identifique suas necessidades. O que é que ele não pode viver sem? Para o que ou quem é o seu compromisso mais íntimo?

  7. Agora você tem uma melhor compreensão de onde está o indivíduo em questão. Repetindo o processo para várias partes interessadas irá ajudá-lo a determinar quem será o alvo e com quem você pode ser capaz de forjar uma aliança.

  8. À medida que a sua campanha evolui, você pode usar esta ferramenta de forma ordenada em conjunto com a metodologia de mapeamento de poder, usando a última para identificar os interessados-chave, e a primeira para descascar as camadas de interesses de cada interessado.