História

Interrompendo a visita de Obama em Myanmar

Jovens manifestantes myanmarenses segurando cartazes durante a palestra do então presidente dos EUA Barack Obama no Diamond Jubilee Hall da Universidade de Yangon. Photo: Steve Tickner

Em resumo

Em 2014, jovens ativistas da Universidade de Yangon, em Myanmar, interromperam criativamente uma palestra com o então presidente Obama para desmascarar as falhas no processo de reforma do governo dominado por militares.

O então presidente Obama estava agendado para se encontrar com 400 jovens em uma palestra na Universidade de Yangon na manhã de 14 de novembro de 2014, durante sua segunda visita oficial a Myanmar. A palestra também tinha a presença de autoridades públicas de alto escalão sentadas nas primeiras filas. A vibração da multidão encheu o recinto enquanto o presidente Obama entrava. Assim que ele iniciou sua fala, a multidão se reacomodou em seus assentos. No entanto, vários jovens pelo salão se mantiveram de pé. Eles estavam segurando cartazes que diziam “A reforma é falsa” e “Ilusão”. Os manifestantes entregaram uma carta aberta para Obama no final da reunião. A carta também foi circulada entre a mídia que estava presente no salão.

A ação teve sucesso em confrontar publicamente o presidente Obama com a verdade sobre a real luta pela democracia em Myanmar.

Para apreciar a significância dessa ação, considere o contexto político: Myanmar (também conhecida como Birmânia) estava passando por um processo de reforma política depois de décadas de regime militar. O processo das reformas começou em 2010, depois que uma eleição fraudulenta concedeu o poder a um novo e semi-civil governo que consistia majoritariamente de membros do governo militar anterior. Muitos acreditam que as reformas setoriais iniciadas pelo novo governo eram esforços meramente estéticos para melhorar a imagem internacional do país e convencer os governos ocidentais a remover sanções econômicas, e que não eram realmente sobre a transferência de poder a um governo democrático. A Lei Nacional de Educação, por exemplo, introduzida em 2014 como parte da reforma do setor de educação, foi amplamente recebida como um instrumento opressor para prolongar o regime militar.

Acreditando que o processo de reforma estava tomando a direção errada, um grupo de jovens ativistas se ergueu em aliança com organizações da sociedade civil e outras organizações de jovens, como sindicatos estudantis, para realizar uma mescla de advocacy a portas fechadas e ações públicas.

Como um apoiador próximo do governo semi-civil de Myanmar, os EUA têm grande influência sobre o país. Então, quando o então presidente Obama anunciou sua segunda visita oficial, esses jovens ativistas se juntaram para discutir oportunidades de enviar uma mensagem diretamente a ele. Embora apenas um integrante do grupo tivesse sido convidado para o evento, ele convenceu a organização do evento a permitir a entrada de seus amigos, fazendo com que mais alguns fossem aceitos.

Esse era o contexto para o que aconteceu na manhã de 14 de novembro de 2014. Na falta espaço político para reivindicar um processo mais democrático de reforma ou discutir a modificação da proposta de Lei Nacional de Educação, essa ação teve sucesso em confrontar publicamente o então presidente Obama, um dos principais apoiadores do processo de “reforma” liderado pelos militares, com a verdade sobre a real luta pela democracia em Myanmar – enquanto importantes autoridades governamentais, a mídia nacional e internacional e jovens de toda a região da ASEAN assistiam. Para a juventude de Myanmar, o diálogo com o governo e seus apoiadores a respeito de questões críticas como a impopular Lei de Educação nunca foi uma opção. Esses manifestantes estavam determinados a confrontar o mundo com este fato.

Tática chave

Intervenção criativa

Essa visita de Obama almejava ser a realização máxima dos esforços de um governo dominado pelos militares de se reinventar como uma democracia sem de fato abrir mão do poder. Ao interromper essa performance, os ativistas apontaram a falsidade do processo de reforma e deixaram que o mundo soubesse que a luta pela real democracia em Mynamar ainda estava um tanto quanto viva.

Princípio chave

Busque segurança em redes de apoio

O protesto público em Myanmar pode ser muito perigoso. A presença de observadores internacionais na palestra (incluindo a mídia e estudantes de países vizinhos) e de autoridades estadunidenses ajudou a garantir a segurança dos manifestantes. Qualquer repressão teria envergonhado o governo e provado comprovado o argumento dos manifestantes de que as chamadas reformas democráticas eram apenas um teatro.

Saber mais

Obama’s second Burma visit falls flat
Kyaw Zwa Moe, The Irrawaddy, 2014
Obama lends ear to Burma’s youth
Feliz Solomon, The Irrawaddy, 2014