Em resumo
Um projeto global de arte que inverte de forma extraordinária o modelo de assistência internacional ao alistar pessoas comuns de Gana e de outros lugares pelo Sul Global para ajudarem a "desenvolver o primeiro mundo."
Quer seja motivada por generosidade ou ganância, a linguagem do "desenvolvimento internacional" reforça, com frequência, os sentimentos de superioridade por parte dos cidadãos e cidadãs do "primeiro mundo". Considerando a história extensa e destrutiva do colonialismo e do imperialismo, esses sentimentos de superioridade podem perpetuar a desigualdade ao invés de combatê-la. Tais sentimentos também desviam a atenção do fato de que a qualidade de vida nos EUA tem diminuído ao longo dos últimos 30 anos.
O Ghana ThinkTank — uma rede de think tanks do "terceiro mundo" que planeja soluções para os problemas do "primeiro mundo" — inverte completamente essa ideia. A rede começou com think tanks em Gana, Cuba e El Salvador, e se expandiu depois para a Faixa de Gaza, Irã, Marrocos, México, Indonésia e um grupo de mulheres jovens encarceradas pelo sistema prisional estadunidense.
Listas de problemas – obesidade, crime, depressão, racismo, reuniões entediantes – são coletadas de residentes de cidades estadunidenses e europeias e, em seguida, enviadas aos think tanks do mundo "em desenvolvimento" para análise. Esses think thanks planejam soluções que são, então, implementadas nas cidades origem dos problemas. Cada etapa do processo é registrada em vídeo e exibida em exposições de museus e galerias. Os residentes locais e o público das galerias são convidados a auxiliar na produção de soluções ou a submeter seus próprios problemas. Os problemas podem variar desde algo muito pessoal, tal como "ontem eu fingi ser bissexual para ser aceito", a algo social como "os idosos são tratados como um peso", ou até a algo sem sentido como "a cidade de Karlsruhe é muito sem graça e entediante".
O projeto sempre foi uma mistura audaciosa de provocações simbólicas e solução de problemas reais.
Ao inverter os papéis comuns de ajudante e ajudado, o GTT cria um caminho raro e interessante para o diálogo intercultural sustentável entre grupos com experiências radicalmente distintas. Conforme uma cultura vislumbra as dificuldades da outra, outras perspectivas alternativas emergem, incluindo análises meticulosas (e muitas vezes divertidas) e críticas interculturais que interagem de forma interessante com os estereótipos. "As pessoas estadunidenses enfatizam a educação para manter um sistema de dominação mundial," disseram pessoas de El Salvador sobre os EUA. O México respondeu ao problema de diferença geracional dizendo: "Os latinos respeitam os idosos, os afro-americanos também e os asiáticos também respeitam. É porque pessoas brancas estão no poder em Westport, Connecticut, que as pessoas mais velhas são maltratadas," ao passo que Gana afirmou que "os ocidentais enfatizam muito o individualismo."
Na conclusão da discussão, cada think tank propõe soluções para os problemas que analisou. Algumas dessas sugestões já criaram soluções proveitosas, enquanto outras criaram situações bastante esquisitas (e reveladoras).
O think tank iraniano apontou que o motivo pelo qual as pessoas idosas são vistas como um peso à sociedade na Grã-Bretanha é porque os jovens pensam que as pessoas mais velhas nunca fizeram nada interessante e, por isso, não conseguem se identificar com elas. A solução proposta foi: entrevistar idosos sobre suas memórias engraçadas e atrevidas, e depois disponibilizá-las em formato mp3 para os jovens. Com isso, nós abordamos idosos nas ruas e bares de Cardiff, e pedimos histórias picantes sobre seus casos amorosos da juventude.
"Somos quase todos brancos ricos", reclamaram os residentes de Westport, Connecticut (uma das cidades mais ricas dos EUA). O think tank de El Salvador respondeu: "aposto que existe diversidade suficiente aí — digo, quem conserta suas casas e arruma seus jardins? Aposto que eles não se parecem com você". Os el-salvadorenhos sugeriram a contratação de trabalhadores diaristas imigrantes para participar de eventos sociais em Westport — e nós o fizemos, pelo mesmo valor do trabalho diarista que eles realizavam, 15 dólares a hora.
O GTT também usou esse modelo extraordinário de construção de pontes nas zonas de conflitos pelo mundo: em Mitrovica, no Kosovo, o GTT aproximou os sérvios e albaneses — povos amargamente divididos — para tentar solucionar os problemas um do outro; na fronteira cada vez mais militarizada dos EUA com o México, o GTT pediu aos imigrantes sem documentos para resolver os problemas dos vigias da fronteira. Logo depois que a violência explodiu no Oriente Médio por causa do vídeo do Youtube chamado "A inocência dos Muçulmanos," o Departamento de Estado dos EUA e o Museu do Bronx escolheram o GTT para atuar como embaixadores culturais no Marrocos. Usando como base uma carroça puxada por um burro transformada em um centro de mídia movido por luz solar, nós viajamos pelos vilarejos rurais solicitando aos marroquinos ajuda para resolver os problemas dos Estados Unidos.
O projeto sempre foi uma mistura audaciosa de provocações simbólicas e solução de problemas reais. Nos últimos tempos, o GTT tem empreendido soluções de maiores proporções. O caso em questão: O American Riad está trabalhando em Detroit com os think tanks do GTT no Marrocos e Indonésia para construir um empreendimento com 14 unidades residenciais/comerciais utilizando os princípios arquitetônicos islâmico-marroquinos (projetados pela arquiteta síria mundialmente reconhecida Dra. Marwa Al-Sabouni, originária da cidade bombardeada de Homs). A construção coletiva, ou devemos dizer a construção de Riad, deverá estar completa em 2019.
À parte da questão da resolução de problemas, o principal objetivo do GTT é conectar as pessoas de uma forma íntima e significativa para desafiar o preconceito, racismo, as barreiras geográficas e os conflitos étnicos. Ao redefinirmos os think tanks como grupos de pessoas comuns que podem resolver problemas complexos, estamos transformando o conceito de think tank: não mais um grupo de elites altamente escolarizadas que aconselha estrangeiros vulneráveis e carentes, e sim um grupo de cidadãos locais capazes de solucionar problemas globais usando a sabedoria que decorre das suas experiências diárias.
Tática chave
O GTT enfraquece as normas do desenvolvimento internacional usando táticas clássicas do culture-jamming, como convidar um holandês, sobrevivente do holocausto, para cortar a faixa de inauguração de uma mesquita nomeada Anne Frank, na palestina. (“Se você construí-la, eu vou inaugurá-la”, disse ela.)
Princípios chave
Ao se valer de uma falsa modéstia para "desenvolver o primeiro mundo", o GTT vira o jogo da dinâmica de poder comum entre o primeiro mundo e o terceiro mundo, invertendo extraordinariamente a própria ideia de "especialista".
O GTT dá espaço tanto para quem lista os problemas quanto para quem os soluciona para que façam propostas irreverentes de forma subversiva, solapando as mentalidades comuns e a as autoridades culturais. Quando os marroquinos sugeriram que os estadunidenses lessem o Corão e pensassem na revolução por dez minutos diários, o Departamento de Estado dos EUA (o parceiro do GTT no Marrocos) recusou-se a participar de qualquer coisa do tipo; o GTT continuou mesmo assim.
As pessoas perguntam se o auxílio internacional ajuda ou prejudica, mas nunca perguntam se essa história de ajudar é de fato uma ajuda. No fim das contas, a ajuda não está ajudando. Resolver o problema dos outros cria, com frequência, problemas piores. Ao invés de aparecer no Sul Global de forma presunçosa dizendo "estamos aqui para ajudá-lo", o GTT pede às pessoas suas melhores ideias. Ao invés de oferecer auxílio, o GTT pede solidariedade. Tratar as pessoas como um recurso (ao invés de vítimas carentes) atribui a elas um status elevado.
Metodologia chave
Muitos princípios da pesquisa-ação participativa fazem parte do GTT, inclusive encontrar com as pessoas onde elas estiverem e no período que elas estipularem. (O GTT já entrevistou pessoas enquanto estavam esperando o ônibus.) Isso não deve ser algo extra. Aborde as pessoas nos intervalos de tempo da vida delas e faça pedidos apropriados ao nível de relacionamento que você tenha com elas.