Em resumo
Às vezes o grupo menos estruturado pode ser o mais tirânico. Crie um ambiente participativo e acolhedor, adotando um processo de tomada de decisão transparente e promovendo responsabilizações dentro do grupo.
Você já se sentou em uma reunião interminável em que todos estão teoricamente em pé de igualdade e, ainda assim, um punhado de pessoas monopoliza o debate? Encontros sem facilitadores, por receio de hierarquizar, que giram numa espiral sem fim – sem ninguém saber exatamente quando aquilo termina? Lugares em que novos membros perdem a paciência porque suas sugestões são ignoradas e suas ideias ficam no vácuo? Em que aqueles com as melhores conexões informais são capazes de comandar o show nos bastidores?
Sejam bem-vindos à tirania da horizontalidade!
O ensaio seminal de Jo Freeman, A Tirania da Ausência de Estrutura (1970), deu nome a um problema persistente que atormenta os participantes de grupos e coletivos não hierárquicos. Freeman argumentou que, ao alegar que evitam hierarquias ou mesmo papéis de liderança, as pessoas estão, na verdade, apenas tornando mais difícil identificar e responsabilizar a liderança e a hierarquia que inevitavelmente vem à tona. “Não existe um grupo sem estrutura”, argumenta Freeman, e as pessoas que fingem o contrário estão, na verdade, se desarmando unilateralmente – o que deveria ser feito de fato é identificar e corrigir os problemas de tomada de decisão dentro do grupo.
A responsabilidade é o que dá força à democracia participativa, distinguindo-a de um exercício mecânico de comunicação de preferências.
A ausência de estrutura é muitas vezes erroneamente confundida com a ausência de hierarquia. Contudo, a efetividade de formas não hierárquicas de organização exige muita estrutura. Qualquer pessoa que tenha participado de uma assembleia geral ou reunião de conselho de porta-vozes facilitada de forma eficaz entenderá bem essa distinção.
Lutar por um grupo sem estrutura é tão útil e enganoso quanto almejar uma notícia “objetiva”, uma ciência social “livre de valores” ou uma economia “livre”. Um grupo laissez-faire é quase tão realista quanto uma sociedade laissez-faire. A ideia se torna uma cortina de fumaça para a ação dos fortes ou sortudos que consigam estabelecer uma hegemonia inquestionável. Assim, a ausência de estrutura torna-se uma forma de mascarar o poder.
Já seria ruim o suficiente se a falta de estrutura apenas levasse a sentimentos feridos e encontros mais longos, mas há outro problema: esse arranjo simplesmente não funciona por muito tempo. Se você estiver envolvido em qualquer tipo de campanha de longo prazo, a falta de responsabilidades claras e de um processo organizado de aperfeiçoamento costuma ser fatal.
Então, qual é a saída de uma organização sem estrutura que é inadvertidamente opressiva e não funciona de forma adequada? O melhor remédio é a prevenção: estabeleça processos de tomada de decisão claros desde o início. No entanto, se você já está preso nesse tipo de organização e quer mudar a cultura para algo mais democrático e participativo, o que você deseja não é a hierarquia em si, mas responsabilizações.
A responsabilidade é o que dá força à democracia participativa, distinguindo-a de um exercício mecânico de comunicação de preferências. Isso implica consequências reais quando a vontade expressa das pessoas não é implementada conforme prometido. (Por outro lado, a falta de estrutura fornece muitas formas de observar as preferências coletivas, contudo, pouco equitativas ou efetivas para garantir que sejam postas em prática.) A hierarquia é uma visão particular de como a responsabilidade se concretiza – para os avessos à hierarquia, não é de forma alguma a única.
Existem tantas estruturas organizacionais quanto filosofias de ação coletiva. Mas todas elas compartilham uma coisa em comum: para o bem ou para o mal, reconhecem sua própria estrutura, em vez de se esconder atrás de afirmações improváveis e ofuscantes de uma suposta horizontalidade. Esse reconhecimento e a responsabilidade que dele decorre são a única maneira de garantir uma tomada de decisão efetiva e equitativa.
Originalmente publicado em Beautiful Trouble.