História

Movimento Passe Livre

Protesto Movimento Passe Livre Photo: Gianluca Ramalho Misiti | CC BY 2.0

Em resumo

O Movimento Passe Livre despertou uma geração de brasileiros para o poder da ação em massa na rua e as inerentes possibilidades utópicas de uma revolta popular.

Há dez anos, no Brasil, um movimento horizontal, autônomo, independente e apartidário chamado Movimento Passe Livre foi formado para lutar por transporte público gratuito e de alta qualidade. Desde então, toda vez que um governo municipal no Brasil tentou aumentar as tarifas do transporte público, o Movimento Passe Livre se mobilizou para se opor ao aumento e fazer pressão por transporte público gratuito. Em junho de 2013, esses protestos evoluíram para uma revolta em massa, revertendo com sucesso o aumento de tarifa que era planejado e despertando uma geração de jovens ativistas para o poder das demonstrações em massa.

Quando São Paulo e muitas outras cidades brasileiras anunciaram o aumento da tarifa naquele verão, o Movimento Passe Livre foi para as ruas. Diferente dos anos anteriores, em que o movimento realizava ações semanais, os organizadores optaram por demonstrações mais frequentes. A cada dois dias, na hora do rush, ativistas ocupavam as principais avenidas de São Paulo e interrompiam o trânsito por horas. Ao final de cada ato, os manifestantes se dispersavam cantando: "Amanhã vai ser maior!"

Manifestantes e jornalistas começaram a carregar vinagre para reduzir o efeito do gás lacrimogêneo da polícia. A polícia respondeu prendendo qualquer pessoa encontrada carregando vinagre, provocando zombaria generalizada.

E era.

À medida que o movimento ganhava força, a polícia respondia com repressão e a mídia corporativa consistentemente retratava os manifestantes como vândalos e encrenqueiros, constantemente reunindo imagens de vitrines quebradas e ônibus queimados. Em contraste, a mídia social foi tomada de relatos de violência policial e uso excessivo de tasers, spray de pimenta, gás lacrimogêneo e balas de borracha, gerando suporte generalizado para a demonstração.

Manifestantes e jornalistas começaram a carregar vinagre para reduzir o efeito do gás lacrimogêneo da polícia. A polícia respondeu prendendo qualquer pessoa encontrada carregando vinagre, provocando zombaria generalizada, como memes proliferados na mídia social celebrando “A Rebelião da Salada”, “V de Vinagre”, “A Revolta do Vinagre”, entre outros.

No dia do quinto ato, mais de 100 mil pessoas inundaram as ruas de São Paulo. A onda de protestos atingiu um nível que não era visto no Brasil desde a luta pela democracia durante o regime militar. Poucos dias depois, mais de um milhão de pessoas em centenas de cidades tomaram as ruas, marchando não apenas transporte público acessível, mas contra a corrupção, por melhora na saúde e muitas outras causas. Finalmente, depois de duas semanas de ações quase contínuas na rua, governantes anunciaram que o aumento da tarifa seria revertido.

Todos sentiram a irresistível força das pessoas nas ruas. A mobilização despertou toda uma geração para o poder da ação em massa na rua e as possibilidades utópicas inerentes à revolta popular.

*Originalmente publicado em *Bela Baderna(Edições Ideal, 2013), a edição brasileira de Beautiful Trouble. Traduzida para o português por Gabi Juns e Christine Halvorsen.

Tática chave

Bloqueio

Para pressionar o prefeito da cidade e o governador do estado de São Paulo, o Movimento Passe Livre organizou ações públicas com milhares de pessoas perturbando o trânsito nas principais avenidas da cidade. Essa é uma tática comum no Brasil, onde pessoas ocupam ruas, às vezes fechando-as com pneus em chamas, lixo e madeira. O objetivo é criar caos nas cidades, forçando a mídia a cobrir o problema e colocando o adversário em um dilema de decisão. Um problema comum dessa tática é que ela pode causar clamor público em defesa do “direito constitucional de ir e vir”, especialmente vindo da mídia de direita. Mas, desde a mobilização em massa para reverter o aumento da tarifa, ocupar as ruas tornou-se muito mais aceitável no Brasil, independentemente do motivo.

Princípio chave

Regras simples podem atingir grandes resultados

Ao final de cada ato, o Movimento Passe Livre anunciava o próximo ato com instruções muitos simples: “Próxima quarta-feira, 13 de junho, às 17h. Teatro Municipal.” Nada mais precisava ser dito. Todos sabiam exatamente do que se tratava.

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