Teoria

Pobreza

Os pobres observados por salvadores brancos vs. os empobrecidos vistos por eles mesmos. Fotos: Esher; Abahlali baseMjondolo.

Em resumo

O foco na “pobreza” repousa sobre uma estrutura de caridade que nunca pode trazer justiça. Enfrentar o processo de empobrecimento exige ação política contra aqueles que causam o empobrecimento e se beneficiam dele.

E ai está a grande tarefa humanista e histórica dos oprimidos — libertar-se a si e aos opressores. Estes, que oprimem, exploram e violentam, em razão de seu poder, não podem ter, neste poder, a força de libertação dos oprimidos nem de si mesmos. Só o poder que nasça da debilidade dos oprimidos será suficientemente forte para libertar a ambos. Por isto é que o poder dos opressores, quando se pretende amenizar ante a debilidade dos oprimidos, não apenas quase sempre se expressa em falsa generosidade, como jamais a ultrapassa. Os opressores, falsamente generosos, têm necessidade, para que a sua “generosidade” continue tendo oportunidade de realizar-se, da permanência da injustiça. A “ordem” social injusta é a fonte geradora, permanente, desta “generosidade” que se nutre da morte, do desatento e da miséria.

Daí o desespero desta “generosidade” diante de qualquer ameaça, embora tênue, à sua fonte. Não pode jamais entender esta “generosidade” que a verdadeira generosidade está em lutar para que desapareçam as razões que alimentam o falso amor. A falsa caridade, da qual decorre a mão estendida do “demitido da vida”, medroso e inseguro, esmagado e vencido. Mão estendida e trêmula dos esfarrapados do mundo, dos “condenados da terra”. A grande generosidade está em lutar para que, cada vez mais, estas mãos, sejam de homens ou de povos, se estendam menos, em gestos de súplica. Súplica de humildes a poderosos. E se vão fazendo, cada vez mais, mãos humanas, que trabalhem e transformem o mundo.

— Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido

Origens

Paulo Freire, Pedagogy of the Oppressed

Para os salvadores existirem, é necessária a existência dos que precisam de “salvação”. Colocando de outra forma, salvadores precisam de vítimas. A vitimização — que é o processo que transforma outros seres humanos em vítimas — é requisito do complexo de salvador. E por definição, um complexo de salvador branco é baseado na vitimização do africano — o corpo negro. Assim, descrever os africanos apenas em termos do que eles não são se tornou convencional no Ocidente:

“Eles são considerados caóticos e não organizados, tradicionais e não modernos, tribais e não democráticos, corruptos e não honestos, subdesenvolvidos e não desenvolvidos, irracionais e não racionais, com falta de todas as coisas que o Ocidente presume ser. Brancos ocidentais são ainda hoje considerados os pilares da ‘civilização’, os corretores e árbitros do desenvolvimento, enquanto os negros, os ‘outros’ pós-coloniais ainda são vistos como não civilizados e não esclarecidos, destinados a serem exclusivamente objetos do desenvolvimento.” (“The missionary position: NGOs and development in Africa” | F Manji and C O’Coill, International Affairs 78 (3), 2002).

Salvadores não podem prosperar quando um povo retoma o controle sobre seu destino, afirma sua dignidade e humanidade, cria estruturas para a auto-determinação, se organiza para atender às suas necessidades básicas e tomar decisões coletivas, tem orgulho de sua própria cultura e não busca ajuda, subvenção ou caridade.

Mas para manter essa imagem da África é necessária a cumplicidade dos Estados e ONGs africanas, cada um para levar adiante sua própria forma de violência. Requer a violência associada à destruição da emergência da autoestima, autodeterminação e dignidade que foram, por exemplo, as conquistas da curta revolução liderada por Thomas Sankara em Burkina Faso. Essa violência também é necessária se os novos governantes usarem o Estado como uma fonte privada de acumulação de riquezas através da desapropriação (veja: TEORIA: Neoliberalismo).

As ONGs locais, cujas sobrevivências dependem das doações feitas pela indústria branca salvadora, são cúmplices na nutrição da imagem do africano subserviente, incapaz, primitivo, a vítima que precisa de salvação. A cumplicidade das ONGs africanas, e sem dúvida dos líderes africanos, em perpetuar uma forma de auto-ódio da identidade africana, uma manifestação moderna de “Pele Negra, Máscaras Brancas”, de Fanon, é uma forma dolorosa e muitas vezes não reconhecida de violência.

Salvadores não podem prosperar quando um povo retoma o controle sobre seu destino, afirma sua dignidade e humanidade, cria estruturas para a auto-determinação, se organiza para atender às suas necessidades básicas e tomar decisões coletivas, tem orgulho de sua própria cultura e não busca ajuda, subvenção ou caridade.

Para enfrentar o processo de empobrecimento é necessário ação política contra aqueles que causam o empobrecimento e se beneficiam dele. Exige dos ativistas disposição para agir em solidariedade e popularizar os esforços dos empobrecidos de buscar justiça através de suas próprias ações, bem como a disposição para enfrentar as corporações que colhem imensos lucros através da exploração daqueles que elas empobrecem.

Exemplos do mundo real

U2 Frontman Chased Down Street by German Anarchists Shouting 'Make Bono History'

“Singer said in the same 'great' week he was booed at the TED conference in Arusha, Tanzania.”

‘Make Affluence History’ Campaign

“We rarely connect our wealth and the poverty of others. To make poverty history, we need to Make Affluence History.”

Saber mais

Towards Delivery and Dignity: Community Struggle from Kennedy Road
J. Bryant, Journal of Asian and African Studies, 43(1), 2008
A Short Course in Politics at the University of Abahlali baseMjondolo
Raj Patel, Journal of Asian and African Studies, 43(1), 2008
Thinking Resistance in the Shanty Town
Richard Pithouse, Mute: Culture and Politics After the Net, 2006