História

Substituindo policiais por mímicos

Em uma iniciativa venezuelana inspirada em Bogotá, um mímico de trânsito ajuda a mudar as normas sociais ao zombar de um motorista obstruindo o tráfego de pedestres. Photo: Francisco Lizarazo

Em resumo

Diante de uma policia de trânsito notoriamente corrupta, muitas mortes no trânsito e caos nas estradas, o prefeito de Bogotá, Antanas Mockus, desmembrou os policiais corruptos e ofereceu-se para treiná-los novamente e recontratá-los… como mímicos.

No início dos anos 90, Bogotá era uma cidade em crise. A pobreza, a corrupção e o crime eram endêmicos, a crença pública no governo tinha atingido o fundo do poço e a vida na capital havia, para muitos, se transformado em uma batalha de todos contra todos. Esta foi a situação que o professor de filosofia Antanas Mockus encontrou quando foi eleito prefeito — um político improvável com métodos não convencionais (ele fez campanha vestindo uma fantasia de super-herói de spandex) e uma aprovação incomumente grande de mudanças políticas radicais.

Em seus dois mandatos como prefeito (1995-1997 e 2001-2003), Mockus catalisou uma tremenda melhoria para Bogotá. Lançando campanhas cívicas que envolveram participação pública massiva e voluntária, a taxa de homicídios caiu 70%, enquanto a porcentagem de casas com água potável aumentou de 79% para 100%.

Os mímicos infundiram com êxito as ruas de Bogotá com senso comum — ou, preferencialmente, um senso dos comuns.

Não há um melhor exemplo da abordagem audaciosa e altamente efetiva do prefeito do que seu programa abordando a segurança no trânsito, que viu as fatalidades do trânsito caírem em mais de 50%. Depois de executar um projeto piloto com estudantes de teatro, Mockus demitiu 3.200 policiais de tráfego de uma força policial notoriamente corrupta e, em seguida, ofereceu-lhes a opção de serem novamente treinados e contratados de volta — como mímicos. Quatrocentos aceitaram a oferta, trocando suas algemas e cassetetes por luvas brancas e pintura facial.

Todos os dias, os mímicos andavam pelo trânsito e aproveitavam oportunidades para dramatizar as lutas e frustrações de motoristas e pedestres. Eles faziam escárnio dos carros que bloqueavam as passagens para pedestres e, depois, gesticulavam como se estivessem pintando a passagem, evidenciando sua existência. Eles ajudavam as pessoas idosas a atravessar a rua e fingiam empurrar para fora do caminho os carros bloqueando as interseções. Além dos mímicos, Mockus também distribuiu 350.000 cartões "polegares para cima/polegares para baixo" que os cidadãos poderiam usar para expressar pacificamente a aprovação ou a desaprovação do comportamento no trânsito dos outros.

À primeira vista, parecia uma maneira absurda de tornar o tráfego mais seguro, e Mockus foi ridicularizado na imprensa por usá-la. Mas gradualmente, ao fazer graça dos motoristas e dos pedestres que não seguiam regras básicas e celebrando aqueles que as seguiam, os mímicos conseguiam transformar toda a cultura de trânsito da cidade, infundindo com êxito as ruas de Bogotá com senso comum — ou, preferencialmente, um senso dos comuns.

A construção do ambiente urbano, um dever geralmente reservado para engenheiros, arquitetos, desenvolvedores e similares, tornou-se, sob a prefeitura de Mockus, responsabilidade de todos os habitantes urbanos. Seus programas para Bogotá consideravam os cidadãos como seres políticos que sempre estão participando da construção de suas cidades, com suas atitudes boas ou ruins.

"O genialidade do prefeito," sugere Raymond Fisman "foi reconhecer que escrever leis mais duras ou contratar mais policiais armados seria inútil quando se confronta uma cultura de infrações. Em vez disso, ele possibilitou que os próprios cidadãos de Bogotá mudassem.” Ou, como o próprio Mockus explica, "O conhecimento empodera as pessoas. Se as pessoas conhecem as regras e são sensibilizadas pela arte, humor e criatividade, eles são muito mais propensas a aceitar a mudança." Mockus provou que a criatividade e o humor podem funcionar onde a punição legal falhou.

Teoria chave

A cura social

Parte da genialidade do programa do prefeito foi como ele alavancou a força de um grupo de iguais para mudar o tráfego de Bogotá de uma cultura de impunidade para uma cultura de cortesia enraizada em regras tácitas. Os mímicos estabeleceram um novo tom, mas foi quando os próprios motoristas assumiram a dramatização dessas regras — através de cartões com "polegar para cima/polegar para baixo" e outros dispositivos — que foi estabelecido um novo senso de certo e errado, do que é legal e o que não é, mudando o comportamento social de maneira geral.

Princípios chave

Use o poder do Estado para fortalecer o poder popular

Como tantos outros políticos que foram levados ao cargo com um mandato para uma reforma radical, Mockus poderia ter acabado se acomodando no cotidiano da política. Mas ele não se acomodou; em vez disso, ele usou seu poder para fazer algo audacioso. Ele não apenas "desarmou" a polícia de trânsito, uma ala do aparelho de Estado repressivo que ele herdou (o que, por si só, teria sido uma realização impressionante): ele reinventou-a, virou-a de cabeça para baixo. Ao transformar agentes do Estado corruptos em gentis e sedutores servos do público, ele criou um "vácuo construtivo" do poder estatal que deu origem ao poder das pessoas. A lição: o Estado não se "murcha" sozinho, deve ser desmontado criativamente de modo a convidar a sociedade civil a assumir a responsabilidade pela auto-regulação da sociedade. Mockus entendeu isso e tomou medidas provocantes para transmitir essa visão.

Mate-os com sua bondade

Ao contrário dos policiais, que dependem da força coercitiva, o único poder dos mímicos era sua capacidade de repreender ou induzir o riso. Devido à falta de autoridade e à sua vulnerabilidade no meio do trânsito, os mímicos ficaram no mesmo nível que os outros cidadãos e, assim, foram capazes de afetá-los mais poderosamente. Foi precisamente este empático ponto comum que permitiu que os mímicos mudassem a cultura do trânsito de Bogotá.