Tática

Desobediência cultural

Tshepo Modisane e Thobajobe Sithole fundiram costumes Zulu e Tswana no primeiro casamento tradicional entre pessoas do mesmo gênero na África do Sul em 2016.

Em resumo

A desobediência civil é a violação deliberada de leis injustas. Em um espírito semelhante, a desobediência cultural corajosamente subverte as normas culturais dominantes, quase sempre como tentativa de eliminá-las por completo.

Se você estiver sempre tentando ser normal, você nunca saberá o quão incrível você pode ser.

— Maya Angelou

A desobediência civil é a violação deliberada de leis injustas. Em um espírito semelhante, a desobediência cultural corajosamente subverte as normas culturais dominantes. Embora possamos pensar na cultura como algo mais suave e maleável do que instituições e leis, em muitos lugares os tabus culturais são tão fortes que se estabelecem como leis, e em outros lugares funcionam como lei de fato.

É preciso ter uma vontade firme e uma estratégia calculada para subverter as normas culturais opressivas.

Todos nós enfrentamos leis culturais não escritas que nos fazem sentir oprimidos; quase todos nós nos rebelamos contra elas em algum momento das nossas vidas.

Na terra de Ankole, assim como em outras regiões do oeste de Uganda, as mulheres são proibidas de fazer uma série de atividades que a maior parte do mundo considera normais para a experiência humana, incluindo assobiar, subir em árvores e andar de bicicleta. No Dia Internacional da Mulher de 2018, um grupo de jovens organizou competições de quebra de tabus, incluindo uma corrida de bicicleta. Os eventos foram considerados tão rebeldes contra as normas patriarcais da região que as mulheres receberam ampla atenção da mídia. Encorajadas, várias mulheres ciclistas formaram o Clube das Mulheres Ciclistas de Rukararwe. O grupo usou o empoderamento das caravanas femininas de ciclismo e outras atividades destruidoras de tabus para conter a violência doméstica, eleger líderes locais femininas e convencer muitos vizinhos homens de que, ao invés de ameaçar a comunidade, o empoderamento das mulheres a tornou melhor.

De acordo com uma pesquisa da ONU de 2012, mais da metade das meninas do Malawi são forçadas a se casar antes dos 18 anos de idade. Uma lideraça comunitária feminina da região central do Malawi, Theresa Kachindamoto, lutou contra campos de iniciação sexual e anulou mais de 850 casamentos de crianças. Por conta disso, ela foi apelidada de “Exterminadora do Futuro”.

Para os membros LGBT+ da maioria das sociedades africanas, a existência é resistência. Embora algumas paradas e festivais do orgulho estejam surgindo em todo o continente, dois homens sul-africanos foram muito mais longe e disseram “sim” em cerimônia de casamento tradicional em 2013. Além de professarem seu amor, eles também buscaram passar a mensagem de que “ser gay é tão africano quanto ser negro”.

Por quais motivos você pode usar a desobediência cultural?

  1. Para tornar visível uma opressão invisível.

  2. Para quebrar publicamente um tabu, ou inspirar a sua eliminação total.

  3. Para normalizar algo que deveria ser normal desde o início.

  4. Para prefigurar a vida sem uma norma cultural opressiva e mostrar que “outra forma de viver é possível”.

  5. Para se solidarizar com aqueles e aquelas que não podem desobedecer a cultura sem comprometer sua segurança.

  6. Para chamar atenção para uma injustiça social mais ampla de uma forma espetacular.

Mas atos de desobediência cultural não precisam ser espetaculares. De fato, muitos de nós nos engajamos em pequenos (e às vezes bastante sutis) atos cotidianos de desobediência cultural o tempo todo, sempre que nos afastamos da norma esperada. Os alvos frequentes são os paradigmas dominantes de gênero e sexualidade, mas a desobediência cultural pode confrontar tabus culturais sobre quase tudo: idade, classe, capacidade, raça, religião, idioma ou ideologia dominante.

No século XXI, à medida que a mobilização progressista se torna mais intencionalmente intersecional, a desobediência cultural vem se tornando um veículo cada vez mais forte para a mudança social. Quando conseguimos unir nossos atos individuais de rebelião e auto-expressão a uma força maior, a desobediência cultural pode desencadear não apenas um diálogo público sobre o que é certo e errado, mas também mudanças sociais profundas e duradouras.

Todos nós enfrentamos leis culturais não escritas que nos fazem sentir oprimidos; quase todos nós nos rebelamos contra elas em algum momento das nossas vidas. Nossa rebelião pode ser mais forte se tivermos um plano e agirmos juntos.