Princípio

Use o humor para enfraquecer a autoridade

Bassem Youssef, conhecido com o Jon Stewart do Egito, teve seu programa de televisão satírico cancelado em 2013 e foi forçado a fugir do país, embora seu exemplo viva nos grafites políticos do Cairo. Foto: Gigi Ibrahim | CC BY 2.0

Em resumo

Especialmente quando uma autoridade se impõe por meio do medo e da intimidação, o humor, a risada e o absurdo podem ser ferramentas poderosas para enfraquecer a autoridade e encorajar pessoas a lutar por seus direitos.

O humor tem sido usado ao longo da história para dar esperança aos subjugados, irritar opressores e encorajar resistência. Ele pode ser uma arma poderosa, diminuindo psicologicamente o tamanho de um opressor e minando sua legitimidade social – não é de se estranhar que piadas anti-nazistas foram banidas durante o Terceiro Reich. O humor também pode nutrir resistência, mostrando que, apesar da realidade dura, o espírito é inquebrável – veja a observação de Antonin Obrdlik: “o humor negro é um índice de força (…) da parte dos povos oprimidos.”)

Sigmund Freud identificou três tipos de humor: o humor do corpo, o humor da mente e o humor do espírito. Todos os três podem ser utilizados para minar o poder e elevar o espírito dos oprimidos.

Os corpos são engraçados porque são incontroláveis: até mesmo os poderosos peidam, soluçam e caem, e podemos subverter sua autoridade ao apontá-lo. Fotos do presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, caindo viralizaram na internet e seus esforços fúteis de controlar a situação demandando que os fotógrafos deletassem imagens que já haviam ganhado escala global só alimentaram a hilaridade. Ver os poderosos tentarem exercer poder absoluto e falharem nos faz rir.

Um humor eficaz dá ao público a justiça pela qual ele anseia.

O humor da mente é útil quando a liberdade de expressão é restrita ou o confronto direto com as autoridades se torna ilegal. A sátira, a ironia, os trocadilhos e os duplos sentidos podem comunicar em múltiplos níveis, sutilmente sinalizando um insulto ou piada para um determinado público mas sendo difícil de apontar como ofensivo ou ilegal por aqueles que estão no poder (e, portanto, sendo difíceis de punir). Além disso, nós rimos com prazer da pura astúcia de trocadilhos criativos. O poder subversivo dessas formas de humor estava totalmente à mostra numa recente decisão das autoridades chinesas de banir piadas e trocadilhos na mídia jornalística.

Finalmente, o humor do espírito se refere à nossa alegria em ver uma pessoa desfavorecida triunfar, particularmente se ela utilizar a arma do opressor contra ele. Um ótimo exemplo disso é o projeto artístico de Anna Gensler no Instagram, Instagranniepants. Cansada de ser vítima de assédio sexual online, Gensler começou a incorporar as mensagens de assédio a caricaturas nuas engraçadas que ela desenhava de seus agressores e postar os resultados na rede, onde elas rapidamente se tornaram um meme cômico e popular.

Figuras arruaceiras como o malandro, o bobo e o palhaço também podem ser utilizadas para perturbar figuras de autoridade e resgatar um senso de agência frente às sufocantes estruturas institucionais. Os malandros têm uma longa tradição de ignorar regras sociais, maliciosamente enganando figuras de autoridade e transformando atividades sérias em diversão. Sua posição fora das expectativas da sociedade “normal” significa que eles podem virar a opressão do avesso ao simplesmente recusar com humor os seus mecanismos de controle, e eles frequentemente conseguem expressar ideias que outras pessoas têm medo de enunciar.

O humor eficaz dá ao público a justiça pela qual ele anseia. Por isso, estabelecer a premissa de uma personagem superior ou orgulhosa em um pedestal, para então torná-la material para os “bobos” destruírem, é importante. O prazer que as pessoas sentem ao presenciar uma disrupção no poder que elas não tem certeza que conseguiriam atingir sozinhas pode ser uma válvula de escape, fornecendo a única forma segura de desafiar a autoridade, ou servir como um exemplo, motivando o público a buscar justiça no mundo real.

O Clandestine Insurgent Rebel Clown Army (Exército Clandestino insurgente Rebelde dos Palhaços - CIRCA) é um ótimo exemplo contemporâneo de humor malandro em ação. O CIRCA já apareceu em protestos por toda a Europa para abalar a postura de “macho” da polícia (bem como de manifestantes mais agressivos) e criar uma atmosfera carnavalesca e anti-autoritária. Em um protesto anti-guerra em um centro de recrutamento do exército do Reino Unido, por exemplo, membros do CIRCA usaram espanadores para “limpar” soldados e carros de polícias, bem como mímicas espertas para imitar o andar e os gestos dos oficiais, fazendo com que até os próprios soldados se segurassem para não rir. Depois que a polícia os removeu do prédio, o centro de recrutamento fechou mais cedo, então os palhaços colocaram uma mesa dizendo “inscreva-se aqui” do lado de fora e começaram a recrutar pessoas para o exército dos palhaços, aos invés do exército regular.

Finalmente, nós somos mais propensos a lembrar de alguma coisa – e compartilhá-la – se ela nos faz rir. Nós somos construídos para ser mais propensos a postar algo engraçado nas mídias sociais do que algo informativo e noticioso. As charges cômicas do “Humorista da Justiça Social” Negin Farsad satirizando estereótipos muçulmanos viralizaram na internet, alcançando centenas de milhares de visualizações. (Veja a história completa da campanha no documentário humorístico de 2012 *The Muslims Are Coming!

Exemplos do mundo real

The Daughters of Violence

Satirizing sexual harassment on the streets of Mexico.

The Muslims Are Coming (trailer)

You’ve never laughed this hard at a Muslim.

How to Make Fun of the Nazis

Germans and Americans use clowning and humour to make fun of neo-Nazis.

George Carlin: Larry King interview (1990)

On the comedic tradition of “punching up” against those in power.

Granniepants

Objectifying men who objectify women in three easy steps.

Saber mais

Humour in Political Activism
Majken Sørensen, Palgrave MacMillan, 2016
Serious Play: Modern Clown Performance
Louise Peacock, Intellect Books, 2009
And Then, You Act: Making Art in an Unpredictable World
Anne Bogart, Taylor and Francis, 2007
Colbert's America: Satire and Democracy
Sophia A. McClennen, Springer, 2011