Em resumo
Apesar da violência estatal, a população de Kisangani obrigou as autoridades do Congo a honrar o direito constitucional de elas terem energia elétrica de confiança.
Abençoada e amaldiçoada ao mesmo tempo, a República Democrática do Congo (RDC) é um dos países mais ricos do mundo em minerais, metais e recursos naturais. O cobalto e o cobre, metais usados com frequência em baterias recarregáveis e dispositivos elétricos, estão entre os maiores recursos naturais explorados por empresas multinacionais. No entanto, ironicamente, menos de 20 por cento da população tem acesso à eletricidade!
As pessoas foram capazes de transformar seu medo do regime em poder sobre o regime.
Em 2018, a cidade de Kisangani, local que abriga uma grande usina hidrelétrica, sofreu com dois meses de um apagão elétrico quase total. A Empresa de Eletricidade Nacional (Société Nationale d’Electricité — SNEL) foi incapaz de atender as seis subprefeituras da cidade, muito por conta de falhas técnicas no sistema e administração corrupta. Ao se deparar com autoridades políticas e administrativas indiferentes, o movimento chamado "Luta pela Mudança", também conhecido como LUCHA (La Lutte pour le Changement em francês) tomou a frente dessa batalha.
O movimento teve como foco a mobilização da população local, uma vez que ela foi o grupo mais afetado pelo apagão. Mas a conscientização foi uma importante precursora da ação. Devido ao fato de que o país fora destruído por guerras e massacres, os apagões elétricos eram considerados comuns e o acesso à eletricidade enquanto um direito fundamental não era considerado um problema urgente. O LUCHA lançou uma forte iniciativa para aumentar a conscientização, da panfletagem e fixação de cartazes à interação pessoal e recrutamento individual.
Dois meses depois, o movimento convocou um ato que foi seguido de mais marchas e manifestações. As pessoas convocaram ocupações populares na sede da SNEL, na prefeitura e no escritório do governador provincial. Elas marcharam com apenas uma demanda às autoridades: resolver os blecautes de uma vez por todas. Tais mobilizações não eram comuns, uma vez que o regime era conhecido por sua brutalidade. Embora já antecipassem a repressão, as pessoas de Kisangani foram às ruas, portando como arma a indignação moral com a violação de seu direito constitucional. O regime temia que a conjuntura política se voltasse contra ele, como ocorrera recentemente nos países vizinhos.
Assim, logo após a repressão, as autoridades demitiram o Diretor Provincial da SNEL por "incompetência", indicaram um novo diretor e adotaram um novo plano estratégico para resolver os blecautes e melhorar o fornecimento de energia em Kisangani. Elas também anunciaram planos para construir uma segunda usina hidrelétrica. O poder público, com medo de que um movimento organizado mais amplo pudesse surgir, foi obrigado a ceder à pressão popular e encontrar soluções locais sustentáveis.
Teoria chave
A campanha traçou suas ações de modo a não deixar espaço para ambiguidade em relação às suas demandas, incluindo uma ação "ilumine o dia", na qual as pessoas andavam nas ruas em plena luz do dia com velas acesas, denunciando a escuridão que reinou na cidade como resultado do blecaute.
Tática chave
Reunir grandes quantidades de pessoas em protestos, vigílias e ocupações ampliou a voz da população local, permitindo a ela ignorar seus incompetentes políticos eleitos e confrontar diretamente as autoridades. As ações em massa permitiram que ativistas e movimentos externos à cidade juntassem forças e dessem apoio à população local, juntando a solidariedade com um senso de unidade. Ao usar ações em massa nas ruas, as pessoas foram capazes de transformar seu medo do regime em poder sobre o regime.
Princípio chave
Tendo experimentado a amargura de uma guerra civil, as pessoas de Kisangani sabiam muito bem a importância de insistir na não-violência, independentemente da resposta das autoridades. Essa disciplina foi poderosa de duas maneiras: em primeiro lugar, ela criou um senso de resiliência que fez as pessoas superarem o medo e enfrentarem a brutalidade policial. Em segundo lugar, ela permitiu que a campanha atuasse com discernimento e suspendesse os protestos quando a resposta do regime se tornou altamente desproporcional.