História

Boxe contra a opressão de gênero

Tabitha Njeri treina na Boxgirls Kenya, onde também lidera aulas de “habilidades de vida” para outras meninas. Foto: Mia Collis.

Em resumo

Após a violência pós-eleições que atingiu o Quênia em 2008, em que muitas jovens mulheres foram abusadas sexualmente e traumatizadas, o Boxgirls Kenya (Boxeadoras Quênia) usou o boxe para lutar contra a humilhação, estigma e medo que elas vivenciaram.

Somos tão pequenas quanto um beija-flor, mas somos focadas, eficazes e assumidoras irrefreáveis de riscos

— Boxgirls

Após a violência pós-eleições que atingiu o Quênia em 2008, em que muitas jovens mulheres foram abusadas sexualmente e traumatizadas, uma organização chamada Boxgirls Kenya (Boxeadoras Quênia) começou a usar o boxe como um ponto de entrada estratégico para oferecer a jovens mulheres um poderoso antídoto contra a humilhação, estigma e medo gerados pela opressão que elas vivem.

A maioria das jovens mulheres que vivem nas favelas de Nairóbi, Quênia, são filhas de migrantes rurais. Na maioria das vezes, seus pais passam a maior parte do dia fora, trabalhando, deixando jovens meninas para cuidarem de si mesmas e frequentemente também de seus irmãos; as escolas são precárias; não existem instalações ou atividades para jovens. Tudo isso leva a uma situação em que jovens mulheres se tornar vulneráveis ao abuso sexual.

"Estamos usando o boxe para libertar as mulheres do medo.”

Em resposta a isso, muitas encontraram no boxe um espaço seguro para aprender auto-defesa e um ponto de entrada para falar de temas relacionados a sexo e sexualidade, liderança, administração de dinheiro, saúde e bem-estar. O boxe se provou uma ferramenta poderosa para equipar as meninas e jovens mulheres para se protegerem e garantirem sua segurança enquanto fortalecem sua auto-estima. A iniciativa até mesmo treinou a primeira boxeadora olímpica feminina da história do Quênia, Elizabeth Andiego.

O trabalho tem sido liderado por uma organização comunitária denominada Boxgirls Kenya (Boxeadoras Quênia), que busca empoderar jovens mulheres para entender as inseguranças a que são expostas e discutir estratégias para lidar com elas, para que elas possam crescer livres e amar a si próprias. A Boxgirls fala de forma comovente sobre o papel do boxe na luta por um mundo melhor:

“Somos tão pequenas quanto um beija-flor, mas somos focadas, eficazes e assumidoras irrefreáveis de riscos. Boxe é estratégia, poder e um sistema de conhecimento que cria um mundo alternativo em que os corpos de mennas e jovens mulheres estão protegidos e sua segurança, garantida. Nós o usamos para libertar meninas e jovens mulheres do medo.”

As participantes consistentemente relatam um aumento em sua confiança, senso de agência, perspectiva crítica e disposição e abilidade para se posicionar e agir contra a discriminação. A capacidade de liderança e confiança das jovens mulheres enquanto cidadãs e atores políticos foi fortalecida, inspirando-as a educar, organizar e empoderar a si mesmas e outras jovens mulheres para, juntas, abordar problemas e desafiar a violência em todos os aspectos de suas vidas. Por fim, a experiência se tornou uma forma de influenciar e informar o público, pais, escolas e líderes locais e, portanto, mudar o discurso, as atitudes e o comportamento público.

Teoria chave

Feminismo

Em sua introdução a Mudando o Mundo Delas: Conceitos e Práticas de Movimentos de Mulheres (Association of Women’s Rights in Development - AWID, 2008), Srilatha Batliwala argumenta em favor de um entendimento do feminismo como:

“… uma ideologia e uma categora analítica que é ao mesmo tempo mais ampla e mais incisiva do que foi nos anos 1960 e 70. (…) Agora, nós nos posicionamos não apenas pela igualdade de gênero, mas também pela transformação de todas as relações sociais que oprimem, exploram ou marginalizam qualquer grupo de pessoas, mulheres e homens, com base em seu gênero, idade, orientação sexual, capacidade, raça, religião, nacionalidade, localização, classe, casta ou etnia. (…) Nós buscamos uma transformação que cria igualdade de gênero dentro de uma ordem social inteiramente nova – uma em que tanto homens quanto mulheres possam individual e coletivamente viver como seres humanos em sociedades calcadas em igualdade social e econômica, gozar do amplo conjunto de direitos, viver em harmonia com o mundo natural e ser liberados da violência, conflito e militarização.” (Batliwala, 2008).

Princípio chave

Crie vários pontos de entrada

Em Nairóbi, o boxe é usado como um ponto de entrada para discutir assuntos difíceis relacionados a sexo e sexualidade, bem como abordar problemas relacionados à violência contra as mulheres. Às vezes é difícil confrontar diretamente questões políticas controversas, mas quando elas estão enraizadas em algo tão pessoal e físico quanto o boxe, as pessoas têm mais chance de se abrir. Os esportes têm um amplo apelo, especialmente entre a juventude: eles parecem apolíticos e menos ameaçadores; a Boxgirls tomou estas qualidades atraentes e ofereceu uma porta de entrada para engajar profundamente as mulheres em questões políticas que as afetavam.

Saber mais

The Fragile Strength
Documentary, by Patricia Esteve, 2015
Box Girl
Documentary, by Jackie Adiwinata, 2013
BoxGirls Kenya
FICCS Channel, 2012
Kenyan Boxgirl
BBC World Service, 2015