História

Pirâmide de calçados

Uma pirâmide de calçados com um símbolo de minas terrestres em um protesto realizado em Paris, em 2012. Foto: Patrick Janicek | CC BY 2.0

Em resumo

Como parte da Campanha Internacional para a Proibição de Minas Terrestres, manifestantes construíram enormes pirâmides de calçados para dar visibilidade ao número de pessoas que ainda são mortas ou feridas por minas em antigas zonas de conflito.

Na era pós-Guerra Fria, em zonas de conflito extintas do Camboja a Moçambique, minas terrestres seguiram mutilando e matando pessoas comuns todos os dias. Elas explodem pernas, pés, dedos e mãos de suas vítimas. Cravam estilhaços em seus rostos e corpos. Como as minas terrestres permanecem no solo por muito tempo após o fim das guerras, a grande maioria (70 a 85%) das vítimas são civis, e não soldados — muitas vezes, crianças que estão simplesmente brincando nos campos perto de seus vilarejos.

A pirâmide de calçados funcionou porque era visualmente cativante, emocionalmente poderosa e fácil tanto de participar quanto de entender.

Em 1992, a Campanha Internacional para a Eliminação de Minas (ICBL) foi criada para tratar desse problema global. Seu objetivo: um mundo livre de minas terrestres. Unindo grupos preocupados com crianças, mulheres, veteranos, meio ambiente, direitos humanos e controle de armas – e conquistando apoiadores famosos como a princesa Diana –, a campanha se espalhou mundo afora, tornando-se uma rede poderosa que abrange mais de 100 países.

Como a violência com minas terrestres estava espalhada pelo mundo, em zonas de guerra remotas que saíram das manchetes dos jornais, era fundamental encontrar uma forma de dar visibilidade ao problema nas capitais ocidentais, onde um sentimento público crescente poderia pressionar os principais governos. Uma tática – no meio do caminho entre uma vigília artística e um truque midiático, usada principalmente em comícios em Paris ao longo dos anos 1990 – foi a de construir pirâmides de calçados enormes e de muito poder simbólico. Em pelo menos um caso, a pirâmide continha 18 mil calçados, representando as mais de 18 mil pessoas mortas ou feridas por minas terrestres anualmente.

Com o entendimento de que pés e pernas de civis inocentes estavam sendo destruídos por minas terrestres em todo o mundo, cada participante da marcha foi convidado a trazer um par de calçados velhos (veja: PRINCÍPIO: Regras simples podem oferecer grandes resultados. À medida que os manifestantes passavam por um local central, eles paravam para um momento solene e acrescentavam seus calçados à pirâmide. Ao longo da marcha, a pilha cresceu, tornando-se um mini monumento dedicado aos horrores das minas terrestres, capturando simbolicamente a escala do sofrimento e o custo humano de não banir essa arma maligna. Mais do que qualquer discurso ou gesto de protesto, essa escultura e os momentos rituais em torno dela levaram o debate para o dia a dia das pessoas, não apenas com seriedade, mas também com a oportunidade de oferecer uma imagem potente que chegou às primeiras páginas da imprensa internacional (veja: PRINCÍPIO:Faça o trabalho da imprensa.

O Tratado de Ottawa, que proíbe o uso, a produção, o armazenamento e a transferência de minas terrestres, foi adotado em setembro de 1997. Em 2017, 162 Estados eram signatários do tratado e 30 países se tornaram livres de minas. Em 1997, a ICBL e sua coordenadora fundadora, Jody Williams, receberam em conjunto o Prêmio Nobel da Paz.

Teoria chave

Lógica de ação

As melhores ações criativas – seja um desafio direto ao poder ou uma expressão mais simbólica – tendem a ter uma lógica orgânica simples, que mais ou menos se explica. A pirâmide de calçados certamente tinha essa qualidade. Com uma legenda simples – “Estes calçados representam todos os pés, pernas e vidas ceifadas por minas terrestres em todo o mundo” –, seu simbolismo atingiu o alvo imediata e dramaticamente, tanto para os participantes quanto para os observadores.

Princípio chave

Torne visível o que está invisível

Como a violência das minas terrestres estava acontecendo em cantos remotos do mundo, muitos dos quais há muito tempo haviam saído das páginas dos jornais, ela foi amplamente ocultada da mídia ocidental e do público. Era crucial, portanto, “tornar visível o que estava invisível”. A pirâmide de calçados era uma visualização clara, concreta e em escala humana da necessidade de ação. De modo crucial, dada a maneira como a mídia funciona, isso pode ser transmitido com uma única e poderosa captação fotográfica.

Use o poder do ritual – Embora houvesse pouca pompa ou cerimônia, o simples ato de acrescentar um sapato à pilha foi permeado pelo poder do ritual, oferecendo aos participantes e observadores um repositório emocional para lidar com a tragédia em questão. Para alguns, evocou a tradição dos enlutados judeus que colocam uma pequena pedra na lápide de seus entes queridos; para todos, proporcionou um momento de reflexão, seriedade e solenidade – em tom adequado à tragédia evidenciada – que de outra forma poderia ter sido uma marcha turbulenta e efêmera.

Regras simples podem atingir grandes resultados – Trazer um par de calçados velhos para a marcha foi uma tarefa fácil. Adicioná-los à pilha era uma instrução bastante simples que todos podiam seguir. No entanto, para muitos, aquele momento foi profundo, e a escultura que surgiu do acúmulo de cada um desses atos simples contou uma grande e complexa história que capturou a escala do problema.

Conheça o seu terreno cultural – A última pilha de calçados lembrou as pilhas de roupas, calçados e outros pertences pessoais dos mortos nos campos de concentração nazistas, ainda em exibição em Auschwitz. Embora muitos observadores provavelmente não tenham feito essa associação conscientemente e os organizadores tampouco tenham destacado essa relação, saber que um holocausto evocaria outro inconscientemente fazia parte da sabedoria e do poder dessa ação.