História

Museu da Escravidão Moderna

O Museu da Escravidão Moderna da Flórida sendo exibido no National Mall, em Washington, em junho de 2010. Foto: Fritz Myer

Em resumo

Para evidenciar abusos a trabalhadores agrícolas e encontrar soluções para o problema, a Coalizão de Trabalhadores de Immokalee, uma organização comunitária de trabalhadores rurais, criou o Museu da Escravidão Moderna da Flórida.

Em dezembro de 2008, os empreiteiros de mão de obra agrícola Cesar e Geovanni Navarrete foram condenados a 12 anos de prisão cada um pela participação no que o procurador Doug Molloy chamou de “escravidão pura e simples”. De acordo com o Departamento de Justiça dos EUA, os empregadores “se declararam culpados de espancar, ameaçar, restringir e trancar trabalhadores em caminhões para forçá-los a trabalharem como trabalhadores agrícolas… [Eles] foram acusados de pagar salários míseros aos trabalhadores e levá-los ao endividamento, ao mesmo tempo em que ameaçavam causar danos físicos se os trabalhadores deixassem o emprego antes que suas dívidas fossem pagas à família Navarrete”.

Apesar dos detalhes chocantes, o caso Navarrete foi apenas o último elo de uma longa e ininterrupta cadeia de exploração, que inclui trabalho forçado, nos campos da Flórida. Essa operação de trabalho agrícola foi a sétima a ser processada por servidão no estado na última década – os casos envolveram mais de mil trabalhadores e uma dezena de empregadores. Desde então, o governo federal dos EUA deu início a dois processos adicionais, elevando o total para nove em 2011.

A escravidão moderna não ocorre no vácuo nem é uma característica inevitável do nosso sistema alimentar.

Mesmo se não considerarmos o trabalho forçado, os empregos agrícolas nos EUA ainda oferecem a pior combinação de salários abaixo da linha da pobreza, condições perigosas e extenuantes e falta de proteções trabalhistas fundamentais em vigor no país. Nesse contexto de pobreza estrutural e impotência, formas extremas de abuso, como o trabalho forçado, podem criar raízes e florescer. Esses casos refletem a impunidade e a exploração desenfreada em todo o setor agrícola. Em outras palavras, a escravidão moderna não ocorre no vácuo nem é uma característica inevitável do nosso sistema alimentar.

Para evidenciar esses abusos e identificar causas e soluções, em 2010, a Coalizão de Trabalhadores de Immokalee — uma organização comunitária de trabalhadores rurais — decidiu criar o Museu da Escravidão Moderna da Flórida. O espaço itinerante consiste em um caminhão de carga cuidadosamente equipado como uma réplica dos caminhões envolvidos no caso Navarrete e uma coleção de painéis sobre a história e a evolução da escravidão na Flórida nos últimos 400 anos. As exposições multimídia foram desenvolvidas a partir de informações fornecidas por trabalhadores que escaparam do trabalho forçado e pelos principais pesquisadores da escravidão e da história do trabalho na Flórida. O catálogo do museu, com resumos de depoimentos dos especialistas, deixou claro para os participantes e para a imprensa que o conteúdo apresentado havia sido elaborado de forma independente.

Com o auxílio de uma equipe de trabalhadores agrícolas e docentes, o museu percorreu intensamente a Flórida, visitando igrejas, escolas, universidades e centros comunitários por seis semanas antes da Marcha pela Liberdade dos Trabalhadores Agrícolas da Coalização de Trabalhadores de Immokalee, realizada ao longo de três dias em 2010.

As reações do público foram tão positivas e o burburinho tamanho que a coalizão decidiu, mais tarde, fazer uma turnê por cidades do sudeste e do nordeste dos EUA, incluindo uma parada no National Mall em Washington. Em março de 2011, o ex-presidente Jimmy Carter esteve no museu em Atlanta. Cerca de 10 mil pessoas já visitaram o espaço desde a sua criação.

Originalmente publicado em Beautiful Trouble.

Tática chave

Intervenção de arte pública

O museu não era uma “obra de arte” no sentido convencional do termo, mas transformava tanto os espaços públicos que ocupava quanto as pessoas que o visitavam. Por meio de uma série de diferentes suportes e mostras criativas – com destaque para a recriação cuidadosa da operação de Navarrete dentro do próprio caminhão –, o museu conseguiu atingir visceralmente os espectadores.

Princípio chave

**Mostre, não diga**

Muitas vezes é difícil para as pessoas aceitarem que a escravidão moderna é um problema sistêmico. A ideia de que o tomate no seu hambúrguer ou na sua salada pode ter sido colhido por uma pessoa escravizada – e certamente foi colhido por alguém que executa um trabalho muito difícil e recebe muito pouco por isso – pode desencadear um impulso de negação difícil de ser superado. Contudo, usando material histórico real, o museu conseguiu acusar de forma robusta e irrefutável o status quo, rompendo esse véu e abrindo a mente das pessoas para o diálogo – e possivelmente para a ação coletiva.

Conecte-se com as pessoas onde elas estão – Em vez de esperar que o público fosse a Immokalee para visitar o museu, a coalizão levou o museu às pessoas. Funcionando como uma apresentação de provas, o museu percorreu a Flórida e o leste dos EUA, muitas vezes estacionando a exposição bem no centro das cidades. Nada como um museu sobre rodas para chamar a atenção das pessoas, ainda mais sendo um espaço itinerante que aborda um tema tão urgente e problemático como a escravidão moderna. O museu foi um início de conversa efetivo.